O Relatório Incompleto
Renn começou a escrever o relatório sobre Kaelira na mesma mesa onde escrevera, semanas antes, os relatórios sobre Sythriel e Nyxaria. Três semanas haviam passado desde a visita do homem do manto cinza, sem nova aparição, sem nova ameaça, apenas o silêncio incômodo de quem sabia que a calma não significava que o assunto estivesse resolvido.
Os dois relatórios anteriores haviam seguido o protocolo na íntegra. Nomes, locais, datas, descrições completas das manifestações observadas, tudo registrado sem omissão, exatamente como defendera diante de Threlan no Círculo Superior. Antes de começar o terceiro, Renn releu as cópias que mantinha dos dois primeiros, tentando reconstruir o raciocínio que o levara a insistir tanto na transparência total.
Na época, o argumento lhe parecera simples. Informação completa permitia decisões melhores. Omissão, mesmo bem-intencionada, acabava cobrando um preço porque obrigava alguém, mais cedo ou mais tarde, a agir sem saber o que precisava saber. Era esse o princípio que aprendera nos primeiros anos de treinamento em Lunareth e que repetira a Threlan com a confiança de quem ainda não tinha precisado lidar pessoalmente com as consequências da própria regra.
A primeira versão do relatório sobre Kaelira começou da mesma forma. Nome completo. Localização precisa, incluindo o assentamento de Margem e a distância até os Pilares Caídos. Descrição do instrumento, das chamas negras, da capacidade de perceber estruturas próximas do colapso e do confronto com o homem do manto cinza, quando a reação do Infernum encontrara uma falha já existente sob o piso do armazém e acelerara o rompimento daquela parte da estrutura.
Renn parou na metade da terceira página.
Pensou em Sythriel, realocada para a galeria e submetida a avaliações que ela não havia pedido, cercada por instrumentos e registros que transformavam cada variação ao redor dela em informação institucional. O relatório que ele escrevera era correto em todos os detalhes, mas também ajudara a alimentar uma sequência de decisões sobre a vida dela tomadas por pessoas que raramente precisavam encará-la enquanto decidiam.
Pensou em Nyxaria, levada a Drentha para dar testemunho diante de outras pessoas enquanto ainda tentava entender o que acontecera no Cofre. O relatório sobre o Vox Tenebrae também fora correto em cada linha e, ainda assim, ajudara a transformar uma experiência íntima em registro permanente, disponível a gente que talvez jamais encontrasse Nyxaria pessoalmente, mas que carregaria dali em diante uma versão arquivada do que havia acontecido com ela.
As duas haviam sido registradas. As duas haviam pagado um preço por isso, e esse preço não aparecia em nenhuma seção dos formulários que Renn aprendera a preencher.
Ele voltou à primeira página e riscou as linhas que indicavam a localização exata de Margem. Deixou apenas a região de Kharad e uma referência ampla aos assentamentos próximos dos Pilares Caídos, sem nome, distância ou indicação de rota que permitisse a alguém encontrar Kaelira apenas lendo o documento. Quem quisesse chegar até ela precisaria investigar por conta própria, fazer perguntas e deixar rastros.
Renn releu o trecho alterado três vezes, esperando encontrar algum argumento que o convencesse a restaurar a informação. Não encontrou nenhum que pesasse mais do que a lembrança de Kaelira depois do confronto, tremendo enquanto tentava entender uma reação que nem ela conseguira controlar.
Encontrou-a no mesmo canto do armazém, com Tessen sentado ao lado, os dois dividindo um pedaço de pão que alguém da comunidade trouxera mais cedo.
— Preciso te perguntar uma coisa sobre o relatório que vou enviar.
— Que tipo de pergunta?
— Quero saber se você prefere que eu registre exatamente onde está ou se prefere que eu deixe a localização vaga.
Kaelira parou de comer e olhou para ele.
— Achei que vocês fossem obrigados a registrar tudo.
— Somos. Eu já fiz isso antes com duas pessoas em situações parecidas com a sua. As duas acabaram pagando um preço que eu não previ quando insisti em seguir o protocolo até o fim.
— Que preço?
Renn se sentou diante dela.
— Uma passou a ser acompanhada de perto pela própria instituição depois do que aconteceu. A outra foi colocada diante de outras pessoas para falar publicamente sobre uma experiência que ainda não tinha terminado de entender. Nenhuma escolheu essas consequências. Eu não planejei nenhuma delas, mas ajudei a criar as condições para que acontecessem.
— E agora quer fazer diferente comigo.
— Quero que você tenha a escolha que elas não tiveram.
Tessen acompanhava a conversa em silêncio, o pão esquecido entre os dedos.
— Se eu deixar a localização vaga, Lunareth pode demorar mais para chegar até você caso precise de ajuda formal — continuou Renn. — Se eu registrar exatamente onde está, qualquer pessoa que consiga acesso ao relatório terá uma rota muito mais simples até você.
— Você acha que gente como aquele homem pode ler os registros de Lunareth?
— Não sei. E não quero descobrir usando você como teste.
Kaelira baixou os olhos para o pão por alguns segundos.
— E as outras duas pessoas?
— O que tem elas?
— Se alguém souber que existem outras relíquias e outras pessoas ligadas a elas, não podem ir atrás delas também?
Renn havia pensado nisso desde a visita do homem do manto cinza, mas ainda não encontrara uma resposta que o tranquilizasse.
— Podem tentar. Vou avisá-las para terem mais cuidado com o que entra nos próximos registros. Mas a decisão sobre o que cada uma revela precisa ser delas. Não quero corrigir um erro cometendo o mesmo de outro jeito.
Kaelira pensou por mais algum tempo.
— Deixa vago.
— Tem certeza?
— Tenho. Já vi o que acontece quando gente de fora sabe exatamente onde encontrar alguma coisa que quer. Prefiro que a ajuda demore a facilitar outra visita.
Renn anotou a decisão.
— Isso te incomoda? — perguntou Kaelira.
— Um pouco.
— Por quê?
— Porque eu disse a Threlan que transparência total protegia mais do que a omissão. Agora estou fazendo o contrário. E a diferença mais óbvia é que, desta vez, eu conheço a pessoa que pode pagar o preço.
Kaelira ficou olhando para ele.
— Talvez você só não conhecesse o preço antes.
Renn ergueu os olhos.
— Como assim?
— É fácil defender uma regra quando a consequência acontece longe de você. Agora você está vendo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
— Isso devia me deixar mais desconfortável.
— Já parece desconfortável o bastante.
— Não é isso. Se eu mudo de princípio dependendo de quem está sentado na minha frente, talvez o problema seja comigo.
Kaelira deu de ombros.
— Ou talvez o problema seja achar que um princípio continua certo mesmo depois de você descobrir quem ele machuca.
Renn não respondeu imediatamente. Era uma frase simples, mas atingia exatamente a parte da questão que seus anos de treinamento haviam tornado mais difícil admitir.
Tessen voltou a comer, observando os dois discutirem uma coisa que talvez entendesse melhor do que Renn gostaria de admitir.
— O que você vai fazer se Threlan ou o Conselho perguntarem diretamente onde estou? — perguntou Kaelira.
— Vou dizer que não informarei sem sua autorização.
— Isso pode dar problema para você?
— Pode.
— E se custar seu trabalho?
Renn respirou fundo.
— Então vou ter de descobrir o que faço depois.
— Você fala isso como se já tivesse pensado na possibilidade.
— Tenho pensado bastante desde que cheguei a Kharad.
Kaelira terminou o pão e limpou as mãos na roupa.
— Por que está fazendo isso por mim? Você me conhece há poucas semanas.
— Porque acho que é a coisa certa a fazer.
— Isso não é resposta completa.
— Eu sei.
Renn fechou o caderno.
— A resposta completa talvez seja que eu já vi o que acontece quando a instituição recebe todas as informações antes de a pessoa envolvida entender o que está acontecendo com ela. E não quero repetir isso só porque repetir seria mais fácil de justificar num relatório.
Kaelira assentiu devagar.
— Essa resposta é melhor.
Renn lacrou o relatório naquela mesma noite e o entregou ao mensageiro que partiria pela manhã. Pela primeira vez desde que se tornara arquivista licenciado, enviava a Lunareth um documento deliberadamente incompleto. Tudo o que escrevera era verdadeiro, mas nem tudo o que sabia estava ali.
Antes de dormir, escreveu duas cartas curtas: uma para Sythriel e outra para o coordenador de Noctyra. Não pediu que apagassem registros nem que escondessem o que já havia sido documentado. Apenas recomendou mais cautela com informações futuras sobre deslocamentos, rotas e locais onde as duas pudessem ser encontradas, especialmente se qualquer nova manifestação das relíquias viesse a ser registrada.
Renn não explicou por carta tudo o que motivara o aviso. Se precisasse contar sobre o homem do manto cinza e a tentativa de tomar o Infernum, preferia fazê-lo com contexto suficiente para que ninguém interpretasse algumas linhas apressadas como prova de uma ameaça que ele ainda não sabia medir.
Apagou a lamparina e continuou acordado por mais tempo do que pretendia, repassando mentalmente os três relatórios que já enviara. Dois seguiam o protocolo até a última informação disponível. O terceiro dizia a verdade, mas preservava deliberadamente uma parte dela.
Nenhum arquivista de Lunareth havia lhe ensinado onde terminava a transparência e começava a exposição.
Renn começava a suspeitar que essa diferença nunca coubera num formulário.