Arcana Primus

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Edrahn

Nyxaria parou de perguntar diretamente depois da segunda tentativa fracassada. Em vez disso, passou a deixar a pergunta no ar, em momentos em que Vaelis não esperava por ela: durante o café da manhã, no meio de uma tarefa doméstica, no instante em que as duas se preparavam para dormir.

— Você ainda não respondeu.

— Eu sei que não respondi.

— Não estou pedindo que responda agora. Só quero que você saiba que eu sei que está evitando.

Vaelis continuou dobrando o tecido que tinha nas mãos, sem erguer os olhos.

Os dias seguintes assumiram um ritmo que Nyxaria reconheceu, depois de algum tempo, como uma forma de espera mútua: ela esperando que a mãe cedesse, Vaelis esperando que a filha desistisse de perguntar, nenhuma das duas dispostas a admitir, em voz alta, que estava esperando algo da outra. A rotina da casa continuou inalterada por fora — as refeições, as tarefas, as visitas ocasionais de outras vozes da rede que vinham perguntar sobre a vigília de Drentha, sem saber que uma negociação silenciosa muito mais antiga acontecia por baixo de cada conversa trivial.

Passaram-se seis dias até que a resistência cedesse, e não cedeu por causa de nenhuma pergunta nova. Cedeu porque Nyxaria, organizando uma caixa de objetos antigos guardada nos aposentos, encontrou um pingente de metal escurecido, gravado com um símbolo que não pertencia a nenhuma família que ela reconhecesse na rede.

A caixa continha, além do pingente, retalhos de tecido sem uso aparente, uma chave pequena demais para qualquer porta da Catedral, e três moedas de uma cunhagem que Nyxaria não reconheceu. Nenhum desses itens despertara qualquer pergunta nela até aquele momento. O pingente, por algum motivo que ela não soube explicar de imediato, parecia pesar mais do que o metal justificava.

— De quem é isso?

Vaelis atravessou o quarto antes de responder, tomando o pingente das mãos da filha com um cuidado que traía mais do que qualquer palavra teria traído.

— Era dele.

— De quem?

— Do homem da carta.

O silêncio que se seguiu durou mais do que qualquer um dos dois pareceu disposto a sustentar.

— O nome dele era Edrahn — disse Vaelis, finalmente, sentando-se na borda da cama, o pingente ainda fechado na mão. — Ele era seu pai.

Nyxaria sentiu a confirmação pesar de um jeito diferente do que esperava. Não trouxe alívio, nem clareza completa. Trouxe apenas o peso concreto de um nome substituindo, de uma vez, anos de ausência sem rosto.

— Por que você nunca me contou isso?

— Porque contar o nome dele sem contar o resto pareceria mais cruel do que não contar nada. E eu não tinha o resto pronto para te dar, durante a maior parte da sua vida.

— Tem agora?

Vaelis hesitou, girando o pingente entre os dedos antes de continuar.

— Edrahn não nasceu na rede. Veio de fora, de uma família de mercadores que comerciava entre Umbra Noctis e os assentamentos do interior. Ficou o suficiente para te conhecer, para te registrar, para escolher esse pingente como lembrança, antes de qualquer coisa acontecer.

— O que ele fazia, antes de desaparecer?

— Dizia que catalogava rotas comerciais para a família dele. Eu nunca perguntei demais sobre isso. Estávamos ocupados demais com você para perguntar sobre qualquer outra coisa.

— Você não desconfiava de nada?

— Desconfiava de tudo, no início. Ele desaparecia por dias, voltava sem explicação completa, trazia objetos que não combinavam com o que dizia fazer. Mas eu também estava sozinha, com uma filha recém-nascida e uma rede que esperava de mim mais doutrina do que eu conseguia sustentar sozinha. Não tive espaço, na época, para investigar o próprio marido enquanto cuidava de você.

— Ele era seu marido.

— Era. Não pela cerimônia formal que a rede exige, mas era, na prática que importava entre nós duas.

Nyxaria absorveu a informação em silêncio, reorganizando, sem pressa, a imagem que vinha construindo da própria infância: não apenas uma mãe sozinha por escolha doutrinária, mas uma mãe abandonada por circunstância, que escolhera, depois, transformar essa ausência em algo que não precisava de explicação constante.

— Edrahn deixou Umbra Noctis quando você tinha poucos meses de vida. Disse que precisava de trabalho que a cidade não oferecia, e que voltaria antes do seu primeiro aniversário. A última pessoa que o viu foi um comerciante da rota leste, que relatou tê-lo encontrado em um posto de descanso, seguindo direção a Kharad.

— Kharad.

— Sim.

Nyxaria estendeu a mão, e Vaelis colocou o pingente nela, devagar, como se entregasse algo mais frágil do que o metal sugeria. Ela o virou entre os dedos, observando o símbolo gravado na superfície sob a luz fraca do quarto: um desenho simples, talvez um brasão de família, talvez apenas um ornamento sem significado além do estético, que nenhuma das duas conseguiria decifrar sem mais informação do que tinham.

— Por que ele apareceria no meu transe? Eu nem cheguei a conhecê-lo.

— Eu não sei. Talvez você tenha ouvido o nome dele de mim, em algum momento que nem eu recordo ter dito em voz alta. Talvez exista alguma outra explicação que nenhuma das duas tenha condições de imaginar ainda.

— Você acha que ele morreu.

— Acho que é a explicação mais provável, depois de mais de vinte anos de silêncio completo. Mas nunca tive confirmação de nada, e parar de esperar confirmação não é a mesma coisa que parar de imaginar outras possibilidades.

— Você vai contar isso a Lunareth? Sobre Kharad?

Vaelis levou um tempo considerável para responder.

— Não decidi. Se eu contar, isso vira parte de um relatório que outras pessoas vão ler, analisar, talvez usar para justificar decisões que não nos pertencem. Se eu não contar, talvez eu esteja escondendo a única pista real que alguém ali poderia usar para entender o que está acontecendo naquela região.

— E o que você prefere?

— Prefiro que essa decisão não seja só minha. Já guardei isso por tempo demais sozinha. Não vou cometer o mesmo erro duas vezes, mesmo que a decisão certa ainda não esteja clara para nenhuma de nós.

— Tem medo de que isso vire só mais um detalhe administrativo no caderno de alguém.

— Tenho medo disso, sim. Tenho mais medo ainda de que não vire nada, e que a única chance de entender o que aconteceu com Edrahn se perca porque eu decidi proteger uma lembrança em vez de compartilhar uma informação que talvez ajude alguém vivo.

Nyxaria fechou os dedos ao redor do pingente, sentindo o metal frio contra a palma da mão, e por um momento permitiu-se imaginar Edrahn parado naquele posto de descanso, na rota leste, escolhendo seguir adiante em vez de voltar. Talvez soubesse exatamente para onde aquela estrada levava. Talvez não soubesse, e tivesse seguido de qualquer forma, movido por algum motivo que nenhuma carta, nenhum registro, nenhuma memória emprestada conseguiria reconstruir agora.

— Você guardou esse pingente todos esses anos sem nunca me mostrar.

— Guardei porque era a única coisa concreta que me restava dele. Não te mostrei porque mostrar significava responder perguntas que eu não tinha como responder, e eu não queria que você crescesse perguntando sobre um homem que talvez nunca mais aparecesse.

— Eu cresci perguntando de qualquer forma. Só não sabia exatamente o que estava perguntando.

Vaelis não respondeu a isso, mas também não desviou o olhar, gesto que, entre as duas, equivalia a uma forma de concordância que nenhuma palavra precisava confirmar.

— Eu quero contar a Renn — disse Nyxaria, finalmente. — Não à rede inteira. A ele, primeiro.

— Por que ele?

— Porque ele já está investigando Kharad por outro motivo, e porque ele foi o único, até agora, que tratou o que aconteceu comigo como algo que precisava entender, não como algo que precisava controlar.

Vaelis assentiu, sem objeção visível.

— Vou escrever a ele ainda esta semana. Já está investigando algo lá. Talvez isso ajude, ou talvez só adicione mais uma pergunta sem resposta à lista dele.

— Mesmo assim.

— Mesmo assim.

As duas permaneceram sentadas em silêncio por mais tempo, o pingente passando de uma mão para a outra entre elas, nenhum dos dois nomes — Edrahn, Kharad — parecendo, àquela altura, pequeno o suficiente para ser dito sem peso.

Antes de apagar a lamparina do quarto, Vaelis tocou o ombro da filha, gesto raro entre as duas fora dos momentos de crise.

— Eu devia ter te contado antes.

— Talvez. Ou talvez eu não estivesse pronta para ouvir antes de tudo o que aconteceu nas últimas semanas.

— Você está pronta agora?

Nyxaria considerou a pergunta com mais cuidado do que qualquer resposta rápida exigiria.

— Não sei se "pronta" é a palavra certa. Mas prefiro carregar isso sabendo o nome dele, do que continuar carregando só o vazio que eu tinha antes.

Vaelis apagou a lamparina sem dizer mais nada, e o quarto ficou na escuridão que Umbra Noctis conhecia melhor do que qualquer outra cidade do continente, escuridão que, àquela altura, já não parecia tão diferente do silêncio que as duas vinham sustentando havia anos, antes de finalmente decidirem rompê-lo.