Arcana Primus

Toda luz projeta uma sombra

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O Estado do Mundo O Surgimento das Portadoras Conflito Atual
Ato I: O Som Sob a Pedra — Cap. 1–5 Capítulo 1 — O Coração de Lumen Capítulo 2 — O Vox Tenebrae Capítulo 3 — A Quinta Fenda Capítulo 4 — O Relógio de Areia Capítulo 5 — O Relatório Cruzado
Ato II: O Que Não Se Mede — Cap. 6–10 Capítulo 6 — O Anel de Aferição Capítulo 7 — A Lente de Aferição Capítulo 8 — A Variação Registrada Capítulo 9 — A Testemunha Capítulo 10 — O Que Veio de Kharad
Ato III: O Que Estava Selado — Cap. 11–15 Capítulo 11 — O Papel Dobrado Capítulo 12 — A Carta de Lunareth Capítulo 13 — O Posto Avançado Capítulo 14 — Edrahn Capítulo 15 — A Fronteira da Exclusão
Ato IV: O Que Dormia Sob Tharvok — Cap. 16–20 Capítulo 16 — As Câmaras Profundas Capítulo 17 — Os Pilares Caídos Capítulo 18 — A Pausa nas Fendas Capítulo 19 — A Névoa Que Recuou Capítulo 20 — O Infernum
Ato V: O Que Ninguém Autorizou — Cap. 21–25 Capítulo 21 — O Documento Selado Capítulo 22 — O Padre Que Ficou Capítulo 23 — Calder Capítulo 24 — O Relatório Incompleto Capítulo 25 — Três Decisões
Ato VI: O Que Não Podia Mais Ser Guardado — Cap. 26–30 Capítulo 26 — A Árvore Proibida Capítulo 27 — O Experimento de Kharad Capítulo 28 — O Homem Que Ficou Capítulo 29 — O Que o Vento Carrega Capítulo 30 — O Que Restou
Ato VII: O Que Começa a Convergir — Cap. 31–35 Capítulo 31 — O Que a Rede Já Sabia Capítulo 32 — O Peso da Verdade Capítulo 33 — Correntes de Aeralis Capítulo 34 — A Estrada Leste Capítulo 35 — A Estranha de Nythera
📜 Profecia

Calder

A segunda carta de Lunareth chegou quase um mês depois da primeira, mais espessa que qualquer correspondência anterior sobre o caso e endereçada, pela primeira vez, diretamente a Nyxaria, não ao coordenador.

O período de espera havia passado sem outro recuo da névoa, sem novas informações de Renn e sem qualquer sinal de que os fios acumulados desde a noite do Cofre estivessem perto de se resolver. Nyxaria retomara a rotina o quanto conseguia: ia ao mercado duas vezes por semana, cumpria as tarefas que a rede ainda lhe atribuía e respondia, quando tinha paciência, às perguntas ocasionais de outras vozes da Catedral sobre o que aconteceria com o "caso registrado externamente", como se ela soubesse a resposta melhor do que qualquer outra pessoa.

Recebeu a carta das mãos do mensageiro no pátio externo da Catedral e não esperou chegar aos aposentos para abri-la.

As primeiras páginas repetiam o que já sabiam: o registro do posto de descanso, dois viajantes naquela noite e o nome de Edrahn confirmado novamente. A terceira página trazia algo novo.

O segundo nome havia sido parcialmente recuperado por meio de um processo que a carta descrevia com mais detalhes técnicos do que Nyxaria tinha interesse em acompanhar: tratamento aplicado ao documento original, sob supervisão de um arquivista especializado em registros danificados por umidade. O resultado não recuperara toda a linha, mas fora suficiente para revelar um nome.

Tharic.

Abaixo dele vinha outra informação, obtida não do documento antigo, mas de contatos mantidos informalmente pelos Arcanistas Livres nas proximidades da Floresta Nythera, ao norte de Umbra Noctis. Um homem com idade compatível e cuja chegada à região poderia coincidir com o período investigado vivia havia décadas nas margens da floresta sob o nome de Calder. Evitava contato prolongado com forasteiros e era conhecido pelos moradores como alguém que chegara, segundo suas próprias palavras, "fugindo de algo que preferia não comentar".

A última linha antes da assinatura deixava a ressalva clara: não havia prova de que Calder e Tharic fossem a mesma pessoa. A identificação se apoiava apenas na idade aproximada, na época em que o homem aparecera na região e em uma história repetida pelos moradores locais. Era uma pista, não uma confirmação.

Nyxaria leu o trecho três vezes antes de entrar. Em cada releitura procurava alguma coisa que tivesse deixado escapar, mesmo sabendo que as palavras continuariam dizendo exatamente o mesmo.

Encontrou Vaelis nos aposentos.

— Encontraram um homem que pode ser Tharic.

Vaelis deixou o que tinha nas mãos.

— Pode ser?

Nyxaria entregou a carta.

— Vive perto de Nythera. Usa o nome Calder.

Vaelis leu tudo antes de responder.

— Isso não confirma que seja ele.

— Eu sei.

— Você disse como se confirmasse.

— Porque é a primeira pista concreta que temos.

Vaelis voltou os olhos para a página.

— Se for Tharic, mudou de nome.

— E apareceu sozinho.

— Isso ainda não sabemos. A carta só diz que Calder vive sozinho agora.

Nyxaria respirou fundo, frustrada consigo mesma por transformar possibilidades em certezas antes da hora.

— Mas se for ele, pode saber o que aconteceu depois do posto de descanso.

— Isso, sim.

— E pode saber alguma coisa sobre Edrahn.

Vaelis assentiu.

— Se Calder for Tharic, provavelmente é a primeira pessoa que encontramos capaz de falar sobre aquela viagem por experiência própria.

Nyxaria pegou a carta de volta.

— Por que alguém mudaria de nome e passaria décadas escondido perto de Nythera?

— Existem respostas demais para essa pergunta.

— Talvez tenha feito alguma coisa.

— Talvez tenha visto alguma coisa.

— Ou talvez estivesse fugindo de alguém.

— Também.

Nyxaria tornou a ler o nome.

— E Edrahn?

— Continua desaparecido.

— Se Calder realmente for Tharic e voltou daquela viagem sem ele, então alguma coisa aconteceu depois daquele posto.

— Provavelmente. Mas ainda não sabemos se os dois seguiram juntos depois dali.

Nyxaria lançou um olhar cansado para a mãe.

— Você está determinada a não me deixar concluir nada.

— Estou determinada a não deixar que uma pista vire resposta só porque nós duas queremos muito que vire.

Nyxaria não conseguiu discutir com isso.

Vaelis releu o trecho sobre a localização de Calder e sua expressão mudou quando chegou ao nome da floresta.

— Nythera.

— Você conhece a região?

— Não pessoalmente. Conheço as histórias.

— Memórias que parecem permanecer em determinados lugares. Vozes que as pessoas juram ouvir quando não existe ninguém por perto. Gente que entra e volta diferente.

— E histórias sobre quem não volta — acrescentou Vaelis. — Muitas delas provavelmente cresceram a cada vez que foram contadas, mas a floresta não ganhou essa reputação sem motivo.

— Você acredita nelas?

— Acredito que entrar num lugar desconhecido tratando todas as histórias como superstição é uma boa maneira de descobrir tarde demais quais delas eram avisos.

Nyxaria olhou novamente para a carta.

— Talvez seja exatamente por isso que alguém escolheria viver ali.

— Para não ser encontrado?

— Para tornar a busca difícil o suficiente para a maioria desistir.

Vaelis a observou.

— Você já está pensando em ir.

— Estou pensando na possibilidade.

— Isso significa que já está procurando motivos para justificar a viagem.

— Significa que passei tempo demais esperando outras pessoas encontrarem respostas por mim.

— Isso é diferente.

— É exatamente por isso que eu quero decidir sozinha.

Nyxaria dobrou a carta com cuidado.

— Se eu for, não vai ser porque a rede pediu, porque Lunareth recomendou ou porque alguém decidiu que é o próximo passo correto para mim. Já fui a Drentha carregando expectativas que não eram minhas. Não vou fazer isso de novo.

Vaelis não respondeu imediatamente.

— Eu não quero decidir por você.

— Eu sei.

— Quero apenas que você não confunda escolher sozinha com precisar fazer tudo sozinha.

Nyxaria ergueu os olhos.

— Isso foi um jeito de dizer que você iria comigo?

— Foi um jeito de dizer que, se você decidir entrar em Nythera atrás de um homem que passou décadas evitando ser encontrado, eu não vou deixar você fazer isso sem alguém ao seu lado.

Antes que Nyxaria respondesse, o coordenador apareceu à porta, alertado pela mesma velocidade com que qualquer notícia importante atravessava a Catedral.

— A carta chegou.

— Chegou.

— Posso ler?

Nyxaria hesitou, mas entregou o documento. Esconder aquilo dentro de Noctyra exigiria mais esforço do que simplesmente lidar com as consequências de outras pessoas saberem.

O coordenador leu devagar. Quando terminou, devolveu a carta e caminhou até a janela.

— Se decidir ir, não entre em Nythera sem alguém que conheça a região.

— Você conhece alguém?

— Conheço pessoas que podem indicar alguém confiável. Não prometo mais do que isso.

— Ainda não decidi.

Ele olhou para ela.

— Então decida primeiro. Depois eu pergunto.

Nyxaria apreciou o fato de ele não tentar terminar a decisão por ela.

— Obrigada.

O coordenador assentiu e saiu, deixando mãe e filha novamente sozinhas.

— Vou responder a Lunareth — disse Vaelis. — Agradeço a informação e peço tudo o que tiverem sobre Calder antes de qualquer viagem. Não quero descobrir no caminho que metade da história estava em outra gaveta.

— Concordo.

— E podemos perguntar sobre contatos perto de Nythera sem confirmar que você vai.

Nyxaria assentiu.

— Se eu for, você realmente iria?

Vaelis não hesitou.

— Sim.

Nyxaria guardou a carta.

A decisão ainda não estava tomada, mas pela primeira vez a viagem deixou de parecer apenas uma possibilidade distante.

Naquela noite, sozinha no quarto, colocou sobre a mesa o pingente de Edrahn, a cópia do registro do posto de descanso e a nova carta de Lunareth. Organizou os três objetos diante de si e tentou reconstruir a história apenas com aquilo que realmente sabia.

Edrahn partira quando ela era pequena. Décadas atrás, seu nome aparecera num posto da rota leste ao lado de outro viajante chamado Tharic. Depois daquele ponto, Edrahn desaparecia dos registros conhecidos. Agora existia um homem chamado Calder, vivendo nas margens de Nythera, cuja idade e época de chegada faziam Lunareth considerar possível que fosse o mesmo Tharic.

Era pouco.

Mas já não era nada.

Nyxaria releu a frase atribuída a Calder: fugira de algo que preferia não comentar. Perguntou-se quantas pessoas haviam tentado descobrir o resto daquela história e quantas vezes ele simplesmente se recusara a responder.

Se Calder não fosse Tharic, a viagem poderia terminar diante de um estranho que nada sabia sobre Edrahn.

Se fosse, talvez ainda se recusasse a falar.

E havia uma terceira possibilidade que incomodava mais do que as outras: ele poderia falar.

Nyxaria olhou para o pingente sobre a mesa.

Durante anos, a ausência de respostas havia sido a pior parte.

Agora começava a perceber que algumas respostas podiam ser piores.

Pensou em Renn, em algum lugar de Kharad, seguindo pistas que ela desconhecia. Pensou também na outra pessoa que ele mencionara de forma vaga em uma correspondência anterior, alguém envolvido em outro caso de relíquia e sobre quem Nyxaria sabia pouco demais para formar sequer uma imagem completa.

As histórias continuavam separadas.

Por enquanto.

Nyxaria guardou os documentos e o pingente.

Não anunciou decisão alguma naquela noite. Ainda não havia escolhido uma data, uma rota ou um guia.

Mas percebeu que a pergunta já não era mais se queria encontrar Calder.

Era quanto tempo conseguiria continuar sem tentar.