O Papel Dobrado
Calwyn buscou Sythriel na galeria do Círculo Médio na manhã seguinte, sem o aviso prévio que Threlan prometera fornecer.
— O arquivista de Lunareth quer falar com você. Agora.
— Você disse que eu seria informada com antecedência.
— Eu disse que o Alto Sacerdote prometeu isso. Eu só executo a ordem que recebo.
Orvin observou a saída de Sythriel sem fazer perguntas, hábito que a galeria parecia cultivar em todos que trabalhavam ali. Sythriel seguiu Calwyn pelos corredores que levavam de volta ao Círculo Superior, o crachá de auxiliar de arquivo ainda pendurado no pescoço, perguntando-se se deveria tê-lo retirado antes de qualquer reunião formal.
Nenhum dos dois falou durante o trajeto. Sythriel notou, pela primeira vez desde a reassinação, que os corredores entre a galeria e o Círculo Superior pareciam mais longos quando percorridos sem saber exatamente o que esperava do outro lado. Calwyn mantinha o passo regular de sempre, sem qualquer indicação de pressa ou hesitação, e Sythriel se perguntou se ele já sabia, antes de buscá-la, o conteúdo exato da conversa que estava prestes a presenciar.
A sala reservada para o encontro não era a mesma do aro suspenso. Continha apenas uma mesa simples, três cadeiras e nenhum instrumento visível. Renn já estava sentado quando os dois entraram, o caderno fechado diante dele, a bolsa de couro pendurada na cadeira ao lado.
— Sythriel. Obrigado por vir.
— Não me deram muita escolha.
— Eu sei. Vou tentar não desperdiçar o tempo que isso te custou.
Calwyn permaneceu de pé junto à porta, posição que deixava claro que a conversa seria ouvida do início ao fim, independentemente de qualquer cortesia trocada entre os outros dois.
— Vim de Noctyra antes de chegar aqui — disse Renn. — Encontrei uma pessoa que passou por algo parecido com o que você passou. Diferente em alguns detalhes, mas parecido o suficiente para que eu precisasse vir pessoalmente confirmar a correlação.
— Que pessoa?
— Isso não é relevante para esta conversa.
— Mas é relevante que ela exista.
— É. Quero que você saiba isso antes de qualquer outra coisa: você não é a única, e o que está acontecendo com você não é uma falha isolada de caráter ou disciplina.
Sythriel olhou rapidamente para Calwyn, que não reagiu à frase, mantendo a expressão neutra de quem já ouvira aquilo antes e decidira não comentar. Ela se perguntou se ele já soubesse, antes daquela manhã, que a avaliação inteira fazia parte de algo maior do que qualquer um no Templo se dispunha a admitir em voz alta.
— Em Noctyra, eu mesmo toquei no objeto relacionado ao caso, só para fazer uma medição — continuou Renn. — A medição não saiu como eu planejei. Disse algo em voz alta que eu nunca teria escolhido dizer, na frente de pessoas que eu tinha acabado de conhecer.
— O que você disse?
— Algo sobre minha irmã. Algo que eu vinha evitando dizer havia anos, mesmo para mim mesmo.
Sythriel reconheceu, na forma como ele contou isso, a ausência de qualquer pedido de pena. Renn não estava oferecendo a história como moeda de troca para obter a dela. Estava apenas estabelecendo, da única forma que parecia considerar honesta, que entendia algo sobre o que pedia para ela revelar.
— Por que me contar isso? — perguntou Sythriel. — Calwyn está ouvindo tudo. Qualquer arquivista cuidadoso teria guardado isso só para os momentos em que estivesse sozinho com a pessoa avaliada.
— Eu poderia ter guardado. Decidi não guardar, porque achei que você precisava saber que eu também não tenho controle total sobre o que essas relíquias arrancam de quem se aproxima delas. Inclusive de mim.
— Isso muda alguma coisa, para você?
— Muda o quanto eu confio no meu próprio julgamento quando estou perto de uma. Não muda o trabalho que preciso fazer.
— O aro de Calwyn reagiu de um jeito que ele nunca tinha visto antes — disse Sythriel, depois de um silêncio. — Eu não controlei o que aconteceu. Só tentei esconder o quanto pude.
— Você sabe por que reagiu daquele jeito?
— Não.
— Eu também não sei. Por isso vim.
Calwyn moveu-se pela primeira vez desde que a conversa começara, ajustando o peso de um pé para o outro, gesto pequeno que Sythriel interpretou como impaciência contida.
— Há outra coisa — disse Sythriel.
Hesitou.
A informação sobre Kharad pesava na manga da veste desde a noite em que a copiara, e ela não havia decidido, até aquele momento exato, se contaria a alguém além de Maren. Contar na frente de Calwyn significava entregar a informação também à Ordem, sem controle sobre o que fariam com ela depois. Não contar significava perder a única oportunidade de entregá-la a alguém de fora, alguém que talvez soubesse o que ela não sabia fazer com aquilo.
Pensou em Orvin, dizendo que o trabalho dele terminava na anotação, que alguém acima dele decidiria o que fazer com qualquer padrão maior. Pensou em Maren, oferecendo silêncio sem exigir nada em troca. Nenhuma das duas situações se parecia exatamente com esta, mas as duas pareciam apontar para a mesma conclusão: guardar informação sem compartilhá-la raramente produzia algo além de mais peso para carregar sozinha.
Sythriel deslizou a mão pela manga, retirando o papel dobrado sem erguer o braço o suficiente para que Calwyn, de onde estava, visse o movimento com clareza.
— Isso pode te interessar mais do que qualquer coisa que eu disser em voz alta.
Empurrou o papel sobre a mesa, na direção de Renn, cobrindo o gesto com a outra mão, como se apenas ajustasse a manga da própria veste.
Renn olhou para o papel, depois para Sythriel, e o desdobrou com um movimento que pareceu, para qualquer observador casual, parte natural da conversa.
Leu em silêncio.
O rosto dele não mudou de forma dramática. Apenas parou de se mover por completo, os olhos fixos na mesma linha por mais tempo do que qualquer leitura daquele tamanho exigiria.
— Onde você encontrou isso?
— No arquivo antigo da galeria. Um registro de catalogação do suporte dezessete.
— Alguém mais sabe que você encontrou isso?
— Só a pessoa que me ajudou a entrar na sala.
Renn dobrou o papel de volta, devagar, e o guardou no bolso interno da bolsa, no mesmo compartimento onde guardara o disco de cristal em Noctyra.
— Calwyn — disse, sem se virar para ele. — Preciso que essa parte da conversa não conste no registro oficial da sessão. Vou levá-la diretamente ao Conselho Pleno de Lunareth, com a devida atribuição a Sythriel.
— Isso não cabe a você decidir.
— Cabe ao protocolo de Lunareth, que prevalece sobre o registro interno da Ordem quando a informação envolve risco de escala continental. Você pode contestar isso com o Alto Sacerdote depois. Agora, preciso que essa folha em particular não apareça em nenhum relatório do Templo antes de eu confirmar a procedência com meu próprio Conselho.
Calwyn atravessou a sala pela primeira vez desde o início da conversa, parando junto à mesa, entre Renn e Sythriel.
— Vou registrar que a sessão foi interrompida por solicitação do arquivista de Lunareth. Vou registrar o horário. Não vou registrar o motivo, porque você não me deu o motivo. Isso é o máximo que posso oferecer sem violar diretamente o protocolo de supervisão que o Alto Sacerdote me impôs.
— É suficiente.
— Você vai ter que se justificar ao Alto Sacerdote.
— Vou. Depois de falar com Lunareth, não antes.
A reunião terminou pouco depois, sem nenhuma conclusão formal sobre a avaliação de Sythriel, sem data marcada para a próxima sessão. Calwyn a escoltou de volta à galeria em silêncio, e Sythriel não tentou preencher esse silêncio com perguntas que sabia que ele não responderia.
No meio do corredor, Calwyn diminuiu o passo, o suficiente para que Sythriel notasse antes que ele falasse.
— Eu não sei o que estava naquele papel — disse, sem olhar para ela. — E não vou perguntar. Mas se Lunareth está disposto a quebrar protocolo por isso, significa que não é pequeno, e coisas assim raramente terminam bem para quem está mais próximo delas quando a notícia se espalha.
— Você está me avisando ou me ameaçando?
— Avisando. Eu cuido dos instrumentos, não das pessoas que eles testam. Mas onze sessões me ensinaram que vale a pena prestar atenção em quem ainda consegue surpreender o aro.
Continuaram o trajeto sem mais palavras.
Antes de se separarem no corredor da galeria, Renn alcançou os dois, aparentemente apressado, e dirigiu-se diretamente a Sythriel, ignorando Calwyn por um instante.
— Obrigado por confiar isso a mim.
— Eu não confiei. Só não sabia o que mais fazer com aquilo.
— Às vezes é a mesma coisa.
— O que você vai fazer agora?
— Vou escrever para Lunareth esta noite, antes de dormir. Depois disso, não sei dizer com certeza. Talvez nada mude rápido o suficiente para que você sinta diferença. Talvez mude tudo.
— Isso não é uma resposta muito útil.
— É a única honesta que tenho.
Renn seguiu em direção aos aposentos reservados a visitantes oficiais, a bolsa presa firme contra o corpo, deixando Sythriel parada no corredor com a certeza concreta de que, fosse o que fosse que aquele papel significasse, ela já não era a única pessoa no Templo que sabia da existência dele.