A Quinta Fenda
Seis dias haviam passado desde o suporte dezessete.
A Maestra Ihren anunciou, antes do coral do entardecer, uma variação aprovada pelo Círculo Médio para os corais daquela semana. A sétima coralista passaria a entrar dois compassos antes do ponto habitual, alterando a distribuição de peso sonoro que sustentava a abertura das fendas altas. A justificativa oficial citava manutenção da disciplina vocal durante o período de transição sazonal.
Nenhum coralista questionou a mudança. Variações sazonais ocorriam três ou quatro vezes por ano, sempre anunciadas com a mesma formalidade administrativa.
Sythriel manteve a terceira posição da fileira central.
A Maestra Ihren ergueu a mão direita. Dezesseis inspirações ocorreram ao mesmo tempo, e a primeira nota subiu pelos pilares na ordem nova. A sétima coralista entrou exatamente dois compassos antes do esperado, deslocando o ponto de equilíbrio que o Templo reconhecia havia gerações.
A luz hesitou.
As fendas altas, condicionadas a abrir no instante exato do uníssono completo, não abriram juntas. Uma única fenda, a quinta da fileira oriental, posicionada diretamente sobre a cabeça de Sythriel, deixou passar um filete de luz um segundo e meio antes das demais.
Sythriel sentiu o calor na nuca antes de ver a claridade pelo canto do olho.
Ela manteve a nota.
O corpo executou a sequência conhecida sem alteração perceptível: postura ereta, respiração contida, olhos fixos no ponto neutro acima do altar. Apenas os dedos, escondidos nas pregas da veste, fecharam-se com mais força do que a peça exigia.
A Maestra Ihren não olhou para a fenda.
Olhou para Sythriel.
O restante das fendas se abriu no segundo seguinte, completando o padrão esperado com um segundo de atraso generalizado, atribuível, para qualquer observador casual, à variação recém-implementada. A luz preencheu o corredor por igual, e o mármore retomou o tom dourado da rotina.
O coral encerrou em uníssono perfeito.
Os coralistas se dispersaram para as funções do entardecer. A Maestra Ihren permaneceu junto ao altar, conferindo um pequeno caderno de couro que carregava sempre fechado durante os rituais. Sythriel reconheceu o gesto como rotina de registro pedagógico, prática comum entre os instrutores do Círculo Médio.
— Sythriel.
A jovem deteve-se a meio passo da saída.
— Quero você na sala de prática individual, amanhã, antes do coral do amanhecer. Vamos revisar sua técnica de sustentação solo.
— Sim, Maestra.
A Maestra Ihren fechou o caderno e seguiu para os corredores administrativos sem acrescentar mais nada. Aulas individuais não eram raras entre coralistas da fileira central, e nenhuma palavra na ordem da Maestra continha acusação. Sythriel caminhou até os aposentos do coral repetindo essa constatação, sem conseguir reduzir a tensão nos ombros.
A galeria do Círculo Médio recebia inspeção trimestral todo primeiro dia do mês, sempre conduzida pelo mesmo Sacerdote Supervisor.
Orvin completou a volta pelos quarenta e três suportes na ordem catalogada, conferindo lacres, etiquetas e condições de armazenamento. O procedimento raramente revelava algo além de poeira acumulada e selos intactos.
O suporte dezessete apresentou uma variação de meio grau na temperatura registrada pelo termômetro de cobre fixado à base, instrumento instalado havia mais de um século para monitorar oscilações residuais em itens de potencial arcano desconhecido. A diferença não excedia os limites de tolerância estabelecidos pelo protocolo.
Orvin anotou a leitura no registro mensal, coluna reservada a observações sem classificação imediata. A mesma coluna recebia, em média, três ou quatro anotações semelhantes por trimestre, quase sempre atribuídas a variações climáticas externas ou desgaste natural dos instrumentos de medição.
Ele lacrou novamente a porta da galeria e seguiu para o próximo ponto da inspeção, sem reservar à anotação qualquer atenção além da exigida pelo procedimento.