Arcana Primus

Toda luz projeta uma sombra

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O Estado do Mundo O Surgimento das Portadoras Conflito Atual
Ato I: O Som Sob a Pedra — Cap. 1–5 Capítulo 1 — O Coração de Lumen Capítulo 2 — O Vox Tenebrae Capítulo 3 — A Quinta Fenda Capítulo 4 — O Relógio de Areia Capítulo 5 — O Relatório Cruzado
Ato II: O Que Não Se Mede — Cap. 6–10 Capítulo 6 — O Anel de Aferição Capítulo 7 — A Lente de Aferição Capítulo 8 — A Variação Registrada Capítulo 9 — A Testemunha Capítulo 10 — O Que Veio de Kharad
Ato III: O Que Estava Selado — Cap. 11–15 Capítulo 11 — O Papel Dobrado Capítulo 12 — A Carta de Lunareth Capítulo 13 — O Posto Avançado Capítulo 14 — Edrahn Capítulo 15 — A Fronteira da Exclusão
Ato IV: O Que Dormia Sob Tharvok — Cap. 16–20 Capítulo 16 — As Câmaras Profundas Capítulo 17 — Os Pilares Caídos Capítulo 18 — A Pausa nas Fendas Capítulo 19 — A Névoa Que Recuou Capítulo 20 — O Infernum
Ato V: O Que Ninguém Autorizou — Cap. 21–25 Capítulo 21 — O Documento Selado Capítulo 22 — O Padre Que Ficou Capítulo 23 — Calder Capítulo 24 — O Relatório Incompleto Capítulo 25 — Três Decisões
Ato VI: O Que Não Podia Mais Ser Guardado — Cap. 26–30 Capítulo 26 — A Árvore Proibida Capítulo 27 — O Experimento de Kharad Capítulo 28 — O Homem Que Ficou Capítulo 29 — O Que o Vento Carrega Capítulo 30 — O Que Restou
Ato VII: O Que Começa a Convergir — Cap. 31–35 Capítulo 31 — O Que a Rede Já Sabia Capítulo 32 — O Peso da Verdade Capítulo 33 — Correntes de Aeralis Capítulo 34 — A Estrada Leste Capítulo 35 — A Estranha de Nythera
📜 Profecia

O Documento Selado

Dois dias depois do colapso, um homem chegou a Margem montado em um cavalo que claramente não pertencia à região: bem alimentado, ferraduras novas e sem as marcas de poeira que uma viagem longa por Kharad costumava deixar.

Korrin o reconheceu antes mesmo que desmontasse.

— Esse é o tipo de gente que normalmente não vem pessoalmente.

— Que tipo? — perguntou Renn, observando o homem amarrar o cavalo junto ao armazém.

— O tipo que prefere mandar dinheiro e nunca aparecer.

Renn permanecera em Margem desde o primeiro encontro com Kaelira, conforme prometera. Os sobreviventes haviam se transferido para lá no dia seguinte ao colapso; ninguém via motivo para continuar acampado junto a ruínas instáveis enquanto os últimos corpos eram recuperados, e Margem, mesmo pequena, oferecia paredes que não ameaçavam ceder durante a noite. Kaelira e Tessen ocupavam um canto do armazém principal, junto a outras famílias da caravana que haviam perdido tendas e equipamentos no desastre.

Desde então, Renn dividia o tempo entre ajudar na contagem dos mortos e escrever em seu próprio caderno observações que ainda não sabia para onde enviar. A chegada do cavaleiro interrompeu aquela rotina de forma abrupta o bastante para que ele percebesse, antes de qualquer palavra, que o dia seguiria por outro caminho.

O homem vestia um manto cinza simples, sem ornamentos visíveis, mas com um corte que Renn já vira antes no Círculo Superior de Heliovar. Trazia um documento dobrado, selado com cera que mostrava sinais de ter sido derretida e refeita mais de uma vez, como se a autorização houvesse passado por diferentes versões antes de chegar àquela forma.

— Procuro a nômade que recuperou um item das câmaras inferiores de Tharvok — disse o homem, sem se apresentar.

— Quem está perguntando? — disse Korrin.

— Alguém com autoridade documentada sobre qualquer artefato originado do antigo posto avançado da Ordem nesta região.

Renn se aproximou. A formulação lembrava demais o tipo de linguagem usada quando alguém queria justificar uma decisão sem explicar quem realmente a tomara.

— Que posto avançado? A Ordem nunca reconheceu publicamente a existência de um posto em Kharad.

— Reconhecida ou não, a jurisdição permanece registrada nos arquivos internos. Tenho autorização para recuperar qualquer item de origem confirmada.

— Como você sabia que havia câmaras inferiores antes que qualquer nômade mencionasse isso publicamente?

O homem demorou um instante para responder.

— Isso não é relevante para o assunto presente.

— É bastante relevante. Se você já sabia que existiam câmaras ali, então alguém na Ordem sabia mais sobre os Pilares Caídos do que admitiu antes da escavação.

— Eu não represento a posição oficial da Ordem em Heliovar. Represento um interesse específico, com autorização específica, sobre um item específico.

— Quem enviou você?

— Isso não é relevante para o assunto presente.

A repetição exata confirmou o que Renn já suspeitava: o homem não estava ali para conversar. Tinha instruções precisas sobre o que podia dizer e, principalmente, sobre o que deveria evitar.

Tessen apareceu correndo antes que a discussão terminasse e entrou no armazém para avisar Kaelira. Quando o homem finalmente chegou ao canto onde ela e o garoto haviam acomodado o pouco que restara da caravana, acompanhado por dois outros vestidos de maneira semelhante, Kaelira já estava de pé. O instrumento continuava envolto no pano de sempre, preso contra o corpo pelos dois braços.

— Você é a responsável pela recuperação do item — disse o homem.

— Eu sou a pessoa que estava lá quando tudo desabou. O item não foi recuperado. Eu sobrevivi com ele.

— A distinção não altera a jurisdição. O instrumento pertence, por origem documentada, à Ordem da Chama Eterna.

Kaelira estreitou os olhos.

— Esse instrumento estava enterrado havia séculos numa câmara que ninguém da Ordem vinha buscar.

— Isso não invalida a propriedade registrada.

— Então me diga quantos dos seus morreram tentando recuperar isso antes de mim. Porque dos meus morreram onze.

O homem não respondeu. Kaelira deu um passo atrás e apertou o pano contra o peito.

— Não vou entregar.

Ele ergueu o documento selado como se aquilo devesse encerrar a discussão.

— Existe um processo formal para disputas como esta. Você pode contestar a decisão pelos canais apropriados. O que não pode fazer é reter, pela força, um item de jurisdição confirmada.

— Então vou descobrir como funciona esse processo enquanto continuo com ele.

— Você não entende o que está carregando nem o risco de mantê-lo sem supervisão adequada.

— Sei o que aconteceu quando toquei nele. Isso já é mais do que você me contou até agora.

Um dos homens atrás do emissário avançou e estendeu a mão para o instrumento.

Kaelira girou o corpo, colocando-se entre ele e o pano.

— Não toca.

— Última chance de cooperar — disse o homem do manto cinza.

— Última chance de ir embora.

O segundo homem avançou e agarrou o braço de Kaelira com força. Tessen gritou e tentou se colocar entre os dois. Korrin deu um passo à frente, embora os três homens diante deles estivessem armados e ele claramente não tivesse decidido o que faria depois disso.

Kaelira sentiu antes de ouvir.

Uma falha sob o piso.

Pequena. Antiga. Escondida sob as tábuas e os blocos reaproveitados que sustentavam aquela parte do armazém.

A mesma pressão que sentira nas câmaras percorreu seus braços e chegou ao instrumento.

As chamas negras surgiram.

Não avançaram sobre o homem que a segurava. Desceram pelo pano, alcançaram o chão e encontraram as fissuras que já existiam sob os pés dele. Por um instante, linhas negras correram entre as frestas das pedras, e o som seco de material cedendo atravessou o armazém.

O piso afundou alguns centímetros.

Uma das pedras se partiu exatamente sobre uma fratura antiga, e o homem perdeu o equilíbrio. Soltou Kaelira por reflexo e recuou, quase caindo sobre o companheiro atrás dele. As chamas desapareceram assim que a seção instável terminou de ceder.

O silêncio veio imediatamente depois.

Kaelira permaneceu parada, respirando rápido, olhando para o chão.

Ela não havia escolhido onde as chamas apareceriam.

Mas reconhecera a falha antes que qualquer outra pessoa soubesse que ela estava ali.

— Isso não estava nos relatórios — disse um dos homens.

— Os relatórios estavam incompletos — respondeu o emissário, recuando um passo. A surpresa em seu rosto já começava a dar lugar a cálculo.

Renn se colocou entre eles e Kaelira.

— Vão embora.

— Você não tem jurisdição aqui, arquivista.

— Não tenho. Mas tenho testemunhas suficientes para garantir que qualquer relatório sobre hoje precise explicar por que homens armados tentaram tomar um artefato de uma sobrevivente à força depois de citar um processo formal de contestação.

O homem guardou o documento selado.

— Isso não termina aqui. A jurisdição não desaparece porque a recuperação falhou hoje.

Renn olhou para o chão quebrado e depois para ele.

— Então, da próxima vez, talvez seja melhor vocês lembrarem que ainda não entendem completamente o que estão tentando recuperar.

O homem não respondeu. Virou-se e saiu do armazém com os dois acompanhantes. Pouco depois, os três deixaram Margem a cavalo, sem olhar para trás.

Kaelira continuou em pé até o som dos animais desaparecer. Só então se sentou, ainda segurando o instrumento contra o corpo. O tremor nos braços demorou mais para passar do que depois da câmara.

— Eu não controlei aquilo — disse.

Renn se agachou perto dela, mas manteve distância.

— Eu sei.

— Eu senti a rachadura antes. Depois vieram as chamas.

— Como na câmara?

— Parecido. Só que desta vez eu nem estava pensando no chão.

Ela olhou para a parte afundada do piso.

— Se aquela pedra estivesse inteira, não teria acontecido nada.

— Pelo que vimos até agora, não.

— E se da próxima vez houver alguma coisa comprometida perto de alguém?

Renn não tentou responder rápido.

— Então precisamos entender isso antes que exista uma próxima vez.

Kaelira soltou o ar devagar.

— Eles vão voltar.

— Provavelmente.

— Com mais gente.

— Talvez.

— Você é péssimo em tranquilizar alguém.

— Não estava tentando.

Kaelira ergueu os olhos para ele. Por um momento, quase pareceu achar graça, mas a expressão desapareceu rápido.

— Vou escrever a Lunareth sobre o que aconteceu aqui — continuou Renn. — Não para catalogar você. Quero que exista um registro fora da Ordem de que alguém apareceu em Margem reivindicando jurisdição sobre uma relíquia ligada a um posto que a própria Ordem nunca reconheceu publicamente.

— Isso protege alguma coisa?

— Não sei. Mas torna mais difícil fingirem depois que nada disso aconteceu.

Tessen se sentou do outro lado de Kaelira e pousou a mão em seu ombro. Ela não se afastou. Korrin permaneceu perto da entrada do armazém, olhando para o caminho por onde os homens haviam partido, com a expressão de alguém que começava a reconsiderar quanto realmente valia vender informações sobre aquela região.

Renn voltou os olhos para o documento que já não estava ali.

A Ordem levara mais de três séculos sem recuperar o que quer que estivesse escondido sob Tharvok. Agora, dois dias depois de Kaelira sair das câmaras com o instrumento, alguém chegara a Margem com uma autorização pronta, conhecimento sobre um lugar que oficialmente não deveria conhecer e pressa suficiente para tentar tomar a relíquia à força.

Isso incomodava Renn quase tanto quanto as chamas negras.

Talvez mais.