Arcana Primus

Toda luz projeta uma sombra

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O Relógio de Areia

A vibração subiu pelas paredes da nave antes que qualquer adepto pudesse identificar a origem.

Trinta e dois corpos sentados nos bancos de pedra sentiram o som atravessar a rocha sob os pés. A névoa, até então flutuando em camadas constantes acima do altar, comprimiu-se em uma massa espessa, cobrindo as três primeiras fileiras.

A mulher que confessava a disputa de herança parou no meio da frase. As palavras seguintes saíram sem ordem reconhecível, misturadas a outras três vozes que começaram a falar ao mesmo tempo, sem que ninguém as tivesse convocado.

Um homem na sexta fileira caiu de joelhos e admitiu, em voz alta, ter roubado mercadoria de um vizinho durante o racionamento do inverno anterior. Ninguém pedira essa confissão. Ele pareceu tão surpreso com as próprias palavras quanto os que o ouviam.

Vaelis deixou o livro de registro cair no corredor secundário e correu de volta à nave principal. Encontrou o adepto responsável pela noite parado junto ao altar, sem instruções a dar, observando a névoa se mover contra qualquer padrão conhecido.

— A porta do Cofre — disse Vaelis.

Não esperou resposta.

Dentro do Cofre Inferior, o tempo havia parado de se comportar como sequência.

Nyxaria permanecia de pé junto ao suporte central, as duas mãos fechadas ao redor do Vox Tenebrae. A pedra ao redor vibrava em camadas, cada uma carregando um fragmento de som que não pertencia à própria voz dela: uma frase incompleta em um idioma que não reconhecia, o choro de alguém que não estava na sala, um nome repetido três vezes por uma voz masculina que se dissolveu antes da quarta repetição.

A Catedral guardava confissões havia gerações. Naquele instante, parte delas encontrava caminho pelos braços de Nyxaria.

Ela não soltou o instrumento.

Quando a porta cedeu por completo, empurrada por três adeptos liderados por Vaelis, o relógio de areia fixado na parede do corredor superior já havia se esgotado três vezes desde a última recarga.

Nyxaria permanecia exatamente onde fora deixada, o corpo rígido, os olhos abertos e fixos em um ponto além da parede do Cofre. A obsidiana em suas mãos não emitia mais som perceptível, mas mantinha um brilho opaco diferente do estado original, catalogado havia setenta e oito anos como inerte.

Vaelis ajoelhou-se diante da filha.

— Nyxaria.

Não houve resposta imediata. Vaelis tocou os dedos da filha, um a um, até que a tensão ao redor da base do instrumento começasse a ceder. O Vox Tenebrae deslizou para as mãos de Vaelis sem resistência, e Nyxaria piscou pela primeira vez em horas.

— O que eu disse?

Vaelis hesitou antes de responder.

— Você repetiu um nome. Três vezes.

— Que nome?

— Não vou repetir.

Nyxaria levou a mão à própria garganta. Ao redor, os outros adeptos começavam a se recompor da confissão coletiva forçada minutos antes, trocando olhares que misturavam constrangimento e reconhecimento mútuo, reação comum entre quem acabara de testemunhar verdades que preferiria não conhecer, mas que a doutrina classificava como necessárias.

Um adepto mais velho, responsável pela coordenação regional da rede, abriu caminho entre os presentes e avaliou a cena sem expressar surpresa.

— Quanto tempo ela ficou sozinha aqui? — perguntou.

— Tempo suficiente — respondeu Vaelis.

O coordenador observou o Vox Tenebrae nas mãos de Vaelis, depois Nyxaria, ainda sentada no chão de pedra.

— Isso precisa ser registrado e enviado à rede antes do amanhecer.

— Ela é minha filha.

— Por isso mesmo precisa ser registrado com precisão.

Uma adepta jovem, sentada perto da parede, repetiu em voz baixa parte do que ouvira durante o transe, palavra por palavra, no mesmo ritmo em que Nyxaria a pronunciara. Nyxaria ouviu a própria frase saindo da boca de outra pessoa e não reconheceu a cadência como sua.

O coordenador retirou um pequeno bloco de couro do bolso interno do manto e começou a escrever, de pé, junto à porta do Cofre. A última linha registrada antes de fechar o bloco descrevia a duração do evento, a identidade da relíquia envolvida e a recomendação de transmissão imediata aos pontos de contato externos da rede.

No alto da nave, a névoa começava a se redistribuir em camadas normais.