A Estrada Leste
Renn passou a última noite em Margem relendo as próprias anotações.
Não os cadernos de Davrick, que já havia revisado duas vezes e estava razoavelmente seguro de compreender nos pontos essenciais. Suas próprias anotações, acumuladas desde que cruzara a fronteira da zona de exclusão: observações sobre o terreno, sobre Korrin, sobre Kaelira, sobre Tessen e sobre o homem do manto cinza, que voltava aos pensamentos dele em momentos diferentes sem que nenhum detalhe novo surgisse para resolver a pergunta principal — quem o havia enviado.
Havia páginas sobre Davrick que ainda não sabia exatamente como organizar para Lunareth. Não os fatos, que eram diretos, mas o peso de ter encontrado um homem que passara décadas por escolha num lugar que o afastara de quase tudo, guardando registros que nenhuma instituição parecera interessada em recuperar até que alguém finalmente chegasse disposto a fazer as perguntas certas.
De madrugada, antes que Margem despertasse por completo, Renn desceu até o andar térreo e encontrou Korrin já acordado, revisando o mapa do trecho até a fronteira da zona de exclusão com a atenção metódica de quem preferia não ser surpreendido pelo terreno.
— Você viaja leve — disse Korrin, observando a bolsa de Renn.
— A maior parte do que carrego não tem peso físico.
— Isso é ou poético ou verdadeiro.
— Nas últimas semanas, as duas coisas ao mesmo tempo.
Korrin dobrou o mapa e o guardou no casaco, gesto de alguém que já conhecia o terreno bem demais para depender do papel, mas ainda o carregava por hábito.
— Se o homem do manto voltar enquanto você estiver fora...
— Não informem onde estou nem se pretendo voltar. Kaelira sabe como entrar em contato comigo se precisar de alguma coisa urgente.
— Ela tem um nome de courier e o ponto de entrega.
— Tem. Confirmamos que funciona.
Korrin assentiu, sem fazer mais perguntas.
Kaelira estava acordada quando o restante do armazém começou a ganhar movimento, sentada junto à janela com o Infernum apoiado contra a parede ao lado, não sobre o colo. Renn percebeu a mudança sem comentar. Tessen dormia em algum ponto que não era visível dali.
— Você parte hoje — disse ela.
— Assim que o courier estiver pronto. Seguimos na mesma direção durante o primeiro trecho. É mais seguro sair da zona em companhia.
— Korrin vai junto?
— Até a fronteira. Depois volta. Foi o combinado.
Kaelira olhou para a rua pela janela.
— Vai contar a Lunareth onde estou?
— Já decidi que não. Isso não mudou.
— Mesmo se o Conselho perguntar diretamente?
— Mesmo assim. Vou dizer que a localização exata foi omitida com consentimento da pessoa envolvida e que estou disposto a justificar essa decisão pessoalmente, se for necessário.
— Isso pode ter consequências para você.
— Provavelmente terá. Ainda prefiro essas consequências às outras.
Kaelira permaneceu em silêncio por alguns instantes. Renn já reconhecia aquele tipo de pausa: não ausência de resposta, mas uma pergunta sendo testada antes de ganhar voz.
— Por que você se importa tanto com o que acontece comigo? — perguntou. — Você me conhece há poucas semanas.
Renn não precisou pensar muito antes de responder.
— Porque vi o que acontece quando alguém como você é registrado antes de estar pronto para ser registrado. Vi isso mais de uma vez, com pessoas diferentes e em situações diferentes. Decidi que, se dependesse de mim, não aconteceria outra vez.
— E se eu estivesse pronta?
— Então eu teria perguntado antes de omitir qualquer coisa. Foi o que fiz.
Kaelira assentiu, satisfeita não porque a resposta resolvesse tudo, mas porque não tentava ser mais limpa do que a situação permitia.
— O homem do manto cinza vai voltar — disse ela. — Você sabe disso.
— Sei. E vai voltar sem saber exatamente onde encontrar você, porque o relatório que enviei não contém essa informação.
— Isso compra tempo. Não resolve.
— Eu sei. Resolver exige descobrir quem ele representa, e isso ainda não consigo fazer daqui. Talvez em Lunareth, cruzando os cadernos de Davrick com o que Sythriel encontrou em Heliovar e com os registros que o Conselho possui, a imagem fique menos incompleta.
Kaelira virou ligeiramente o rosto.
— Sythriel.
— A pessoa de Heliovar que mencionei antes.
— Você disse que talvez eu e ela tivéssemos coisas em comum.
— Disse. Ainda acredito nisso.
Kaelira olhou para o Infernum encostado na parede e depois voltou os olhos para Renn.
— Quando descobrir quem é o homem do manto, você me conta?
— Você será uma das primeiras pessoas que precisam saber.
— Antes de Lunareth?
Renn demorou um instante.
— Antes de qualquer relatório formal, posso prometer. Antes de qualquer conversa informal depende de como eu descobrir e de quem estiver envolvido. Não quero prometer uma ordem que talvez eu não consiga controlar.
— É uma resposta melhor do que simplesmente dizer sim.
— É a única que consigo oferecer com integridade.
Tessen apareceu na entrada do cômodo naquele momento, ainda com os olhos pesados de sono, avaliando a cena sem dizer nada de início.
— Você vai embora hoje — disse para Renn.
Também não era pergunta.
— Vou.
— Vai voltar?
— Não sei quando. Mas, se houver razão concreta para voltar, não tenho motivo para evitar.
Tessen avaliou a resposta e assentiu com a seriedade de quem reconhecia honestidade mesmo quando preferiria ouvir uma garantia.
— Eu cuido dela — disse, indicando Kaelira com um gesto breve.
— Eu sei. Fazia isso antes de eu chegar.
Tessen voltou para o corredor sem acrescentar mais nada.
Kaelira acompanhou o espaço vazio onde ele estivera por alguns segundos, e Renn reconheceu na expressão dela alguma coisa que ainda não sabia nomear completamente: o instante em que alguém percebe, de forma concreta, que talvez não esteja tão sozinho quanto se acostumou a imaginar.
— Você tem sorte de ter ele por perto — disse Renn.
— Ele tem sorte de o Infernum estar encostado na parede em vez de nas minhas mãos quando fico agitada.
Ela fez uma pausa.
— Eu também tenho sorte.
Renn reconheceu a ordem das duas frases. Kaelira quase sempre começava pela versão mais áspera daquilo que sentia e só depois permitia que a verdade menos protegida aparecesse.
Subiu de volta ao quarto reservado a visitantes antes que o silêncio se transformasse em outra coisa, levando consigo o caderno de Davrick e a consciência de que havia naquela partida um custo que não previra quando saíra de Lunareth semanas antes com a intenção relativamente simples de catalogar e correlacionar casos.
Havia correlacionado.
Também havia se envolvido de maneiras que nenhum protocolo de Lunareth previa, e ainda não sabia se aquilo era incompatível com o que prometera ser ao se tornar arquivista licenciado ou se apenas revelava uma parte do trabalho que nenhum protocolo conseguia antecipar.
Abriu o próprio caderno numa página vazia e ficou olhando para ela por mais tempo do que qualquer página em branco deveria exigir.
Depois escreveu a primeira linha.
Partiu ao amanhecer com Korrin, o courier e outros viajantes que seguiam pelo mesmo trecho inicial da rota. Não houve despedida elaborada. Kaelira estava à porta do armazém quando Renn passou, e o gesto que fez foi pequeno: um assentimento breve, suficiente para confirmar um acordo que nenhum dos dois precisava repetir em voz alta.
Tessen não estava visível, mas Renn ouviu de algum ponto interno o som de alguém se movimentando. Por um impulso quase automático, pensou em olhar para trás.
Não olhou.
Já sabia que ele estava ali.
A estrada que saía de Margem em direção ao restante do continente era longa o bastante para que um pensamento se dissolvesse antes que o seguinte chegasse. Depois outro fazia o mesmo, até que o ritmo da caminhada substituiu qualquer tentativa de organizar tudo o que acontecera em Kharad numa forma que Lunareth pudesse receber sem perder metade do que importava durante o processo.
Renn decidiu não tentar organizar ainda.
Por enquanto, caminharia.
Lunareth continuava sendo um lugar conhecido, mesmo que o homem que retornaria para lá já não fosse exatamente o mesmo que saíra. Havia pessoas esperando notícias, documentos que precisavam ser comparados e perguntas que só poderiam começar a ser respondidas quando os diferentes registros estivessem finalmente no mesmo lugar.
Korrin caminhou ao lado dele durante boa parte do primeiro trecho sem falar. Era o silêncio de alguém que já dissera o necessário e não sentia obrigação de preencher o resto.
Renn agradeceu mentalmente por isso.
Quando chegaram a um ponto alto da estrada de onde os Pilares Caídos ainda podiam ser vistos ao longe, Korrin diminuiu o passo. A próxima curva os esconderia por completo.
— Você vai escrever sobre o que aconteceu aqui — disse.
— Vou. É o que faço.
— Vai escrever sobre mim?
— Vou escrever sobre o que observei. Você faz parte disso.
— Tente não me transformar no vilão da história.
Renn olhou para ele.
— Você não é o vilão. Fez escolhas ruins por dinheiro e depois fez escolhas diferentes quando o custo deixou de ser abstrato. Isso descreve mais gente do que provavelmente gostaríamos de admitir.
Korrin permaneceu em silêncio por alguns passos.
— Isso é absolvição ou crítica?
— Observação.
— É claro que um arquivista responderia isso.
Renn quase sorriu.
— O que você faz com a observação é escolha sua.
A curva chegou pouco depois.
Os Pilares desapareceram atrás do relevo, e Renn continuou caminhando para leste com um dos cadernos de Davrick protegido dentro da bolsa, enquanto o segundo permanecia em Kharad, separado dele de propósito.
Não sabia ainda o que encontraria quando chegasse a Lunareth.
Mas, pela primeira vez desde que entrara na zona de exclusão, tinha mais respostas na bagagem do que perguntas quando partira.
O problema era que cada resposta parecia ter aprendido a produzir perguntas maiores.