Arcana Primus

Toda luz projeta uma sombra

🏠 Início
O Estado do Mundo O Surgimento das Portadoras Conflito Atual
Ato I: O Som Sob a Pedra — Cap. 1–5 Capítulo 1 — O Coração de Lumen Capítulo 2 — O Vox Tenebrae Capítulo 3 — A Quinta Fenda Capítulo 4 — O Relógio de Areia Capítulo 5 — O Relatório Cruzado
Ato II: O Que Não Se Mede — Cap. 6–10 Capítulo 6 — O Anel de Aferição Capítulo 7 — A Lente de Aferição Capítulo 8 — A Variação Registrada Capítulo 9 — A Testemunha Capítulo 10 — O Que Veio de Kharad
Ato III: O Que Estava Selado — Cap. 11–15 Capítulo 11 — O Papel Dobrado Capítulo 12 — A Carta de Lunareth Capítulo 13 — O Posto Avançado Capítulo 14 — Edrahn Capítulo 15 — A Fronteira da Exclusão
Ato IV: O Que Dormia Sob Tharvok — Cap. 16–20 Capítulo 16 — As Câmaras Profundas Capítulo 17 — Os Pilares Caídos Capítulo 18 — A Pausa nas Fendas Capítulo 19 — A Névoa Que Recuou Capítulo 20 — O Infernum
Ato V: O Que Ninguém Autorizou — Cap. 21–25 Capítulo 21 — O Documento Selado Capítulo 22 — O Padre Que Ficou Capítulo 23 — Calder Capítulo 24 — O Relatório Incompleto Capítulo 25 — Três Decisões
Ato VI: O Que Não Podia Mais Ser Guardado — Cap. 26–30 Capítulo 26 — A Árvore Proibida Capítulo 27 — O Experimento de Kharad Capítulo 28 — O Homem Que Ficou Capítulo 29 — O Que o Vento Carrega Capítulo 30 — O Que Restou
Ato VII: O Que Começa a Convergir — Cap. 31–35 Capítulo 31 — O Que a Rede Já Sabia Capítulo 32 — O Peso da Verdade Capítulo 33 — Correntes de Aeralis Capítulo 34 — A Estrada Leste Capítulo 35 — A Estranha de Nythera
📜 Profecia

O Que o Vento Carrega

Eryndra não levou as duas de volta ao assentamento.

Levou-as mais fundo na floresta, por um caminho que Nyxaria não teria encontrado sozinha nem depois de uma semana de tentativas. O solo mudava de composição conforme avançavam: primeiro terra comum, depois musgo espesso que abafava quase completamente o som dos passos e, por fim, trechos de uma superfície escura semelhante a vidro coberta por folhas antigas, que rangiam sob as botas de uma forma diferente de qualquer matéria vegetal que Nyxaria conhecesse.

— O nome dele aqui é Calder — disse Eryndra, sem se virar. — Ele não responde ao outro nome há muito tempo. Se você usar o nome antigo logo de início, ele provavelmente vai fechar a conversa.

— Entendido.

— Não é ameaça. É aviso. Ele passou anos tentando viver como alguém diferente de quem era antes de chegar aqui. Chamar pelo nome antigo é pedir que ele volte para uma parte da vida que fez questão de deixar para trás.

— Você o conhece há quanto tempo?

— Desde que eu nasci. Ele já estava aqui.

Vaelis caminhava ao lado da filha em silêncio, observando Eryndra com a atenção discreta de quem ainda tentava compreender o que aquela jovem representava para a história que as levara até Nythera.

Foi Eryndra quem parou primeiro.

O vento mudou.

Não apenas de direção. A corrente que atravessou o caminho parecia mais densa do que o ar ao redor, fria o suficiente para erguer os pelos dos braços de Nyxaria apesar da temperatura relativamente estável da floresta. As folhas mais próximas se moveram primeiro, seguidas pelas mais distantes, numa sequência que não acompanhava a orientação natural das copas.

Eryndra ficou imóvel.

Os dedos dela se ajustaram sobre o Lamentis antes mesmo que ela parecesse perceber o movimento.

— Isso é diferente — disse.

— Diferente de quê? — perguntou Nyxaria.

— Do que aconteceu perto da árvore.

Eryndra fechou os olhos por um instante, prestando atenção ao ar como Nyxaria aprendera a prestar atenção aos silêncios do Vox Tenebrae.

— Lá havia coisas demais guardadas no mesmo lugar. Vozes, passos, medo, períodos que eu não conseguia separar. Aqui o vento está puxando alguma coisa de outro ponto da floresta.

Nyxaria olhou ao redor.

— Puxando?

— Às vezes acontece. O Lamentis não mostra só o que está exatamente onde eu piso. Se existem resíduos próximos e o ar consegue atravessar entre eles, a manifestação pode deslocar fragmentos.

— Até onde?

Eryndra abriu os olhos.

— Nunca medi.

— Ótimo.

— Você perguntou.

Nyxaria quase sorriu, mas o vento voltou antes que respondesse.

Dessa vez veio acompanhado por um som breve.

Não era uma voz inteira. Parecia o fim de uma frase pronunciada longe demais ou há tempo demais para conservar as palavras, reduzida a uma cadência incompleta que o ar arrastava entre as árvores.

Vaelis ergueu a cabeça.

— Você ouviu?

— Ouvi — respondeu Nyxaria.

Eryndra levantou o arco.

— Vou tentar tornar mais claro.

— Isso pode trazer alguma coisa que não deveria?

— Não consigo trazer o que não está aqui.

Nyxaria reconheceu imediatamente a importância da resposta.

— Então faça.

Eryndra encostou o arco nas cordas.

A primeira nota foi baixa, quase engolida pelo próprio espaço entre as árvores.

O vento respondeu.

Uma corrente de ar atravessou o caminho na direção contrária àquela que soprava momentos antes, levantando folhas secas e fazendo pequenos ramos vibrarem sem que as copas acima acompanhassem o movimento. O som do Lamentis pareceu se espalhar junto com ela, não mais alto, mas mais presente, como se cada deslocamento de ar carregasse uma parte da nota.

Então vieram os resíduos.

Passos.

Um fragmento de respiração acelerada.

O cheiro de terra molhada numa área em que o solo estava seco.

Uma voz feminina que chegou deformada demais para formar palavras, seguida por outra, masculina, tão distante no tempo ou no espaço que restava apenas a entonação.

Nada daquilo aparecia diante delas como cena completa. Eram pedaços, informações fragmentadas que a floresta havia conservado e que o vento sombrio tornava momentaneamente perceptíveis.

Eryndra manteve a nota.

A corrente de ar mudou outra vez.

Dessa vez trouxe algo diferente.

Nyxaria sentiu primeiro uma pressão seca, mineral, acompanhada pela impressão quase física de pedra sustentando peso demais. Não viu uma parede nem ouviu uma ruptura específica; ainda assim, o corpo reconheceu a sensação desagradável de alguma coisa prestes a perder coesão.

Logo depois veio outra marca.

Mais fluida.

Mais profunda.

Uma sensação de pressão distribuída, movimento contínuo e trajetórias desviando umas das outras como correntes submersas.

Eryndra retirou o arco das cordas.

O vento continuou por mais alguns segundos antes de enfraquecer.

— Você sentiu as duas — disse ela.

— Senti.

— Não pertencem à mesma memória.

— Também achei.

Eryndra olhou para o corredor de árvores à frente.

— Uma delas parece mais recente.

— Você consegue saber quanto?

— Não. Só consigo perceber quando certas camadas estão menos desgastadas do que outras. Isso não me dá datas.

Nyxaria assentiu.

— Já encontrei manifestações com qualidades parecidas.

Eryndra voltou os olhos para ela.

— Onde?

— Não iguais. Mas, nas últimas semanas, descobri que existem outras pessoas cuja relação com determinadas relíquias mudou de uma forma que ninguém parece entender ainda.

— Pessoas como você?

— Em parte.

— Quantas?

— Não sei. Conheço a existência confirmada de pelo menos duas além de mim.

Eryndra olhou para o Lamentis.

— E essas marcas são delas?

Nyxaria demorou antes de responder.

— Não sei.

— Mas você reconheceu alguma coisa.

— Reconheci semelhanças. Isso é diferente.

Nyxaria apontou para o caminho por onde o vento havia passado.

— A primeira impressão lembra descrições que ouvi sobre outra manifestação. A segunda também tem características que me parecem familiares. Mas o que o Lamentis trouxe são resíduos daqui. Isso não significa que aquelas pessoas estejam fazendo alguma coisa agora, nem que o vento tenha atravessado o continente para encontrá-las.

Eryndra considerou a explicação.

— Então alguém ou alguma coisa passou por esta região e deixou essas marcas.

— Talvez. Ou alguma coisa carregada por essas pessoas passou. Ou aconteceu aqui alguma manifestação com características parecidas. Temos informação suficiente para desconfiar, não para escolher uma resposta.

Vaelis observou Nyxaria por um instante.

— Você está começando a falar como aquele arquivista.

Nyxaria lançou um olhar para ela.

— Isso foi insulto?

— Ainda estou decidindo.

Eryndra quase sorriu.

O vento se acomodou aos poucos, embora pequenas correntes ainda percorressem o solo em direções que Nyxaria não conseguia associar ao movimento natural da floresta.

— Existem outras, então — disse Eryndra.

— Existem.

— Elas sabem que eu existo?

— Provavelmente não.

— E alguém está procurando por pessoas como nós?

Nyxaria pensou em Renn.

— Tem um arquivista tentando descobrir o que está acontecendo sem transformar todo mundo em propriedade de alguma instituição.

— Da Ordem?

— Não. Lunareth.

— Você confia nele?

Nyxaria demorou apenas um instante.

— Mais do que confio em qualquer instituição que já tentou me dizer o que sou.

Eryndra passou o polegar pela lateral do violino.

— Ele registra tudo?

— Quando pode. Mas aprendeu que saber alguma coisa não significa automaticamente ter direito de expor quem está envolvido.

— Isso é raro entre forasteiros.

— Também achei.

Retomaram o caminho.

Durante o trecho seguinte, Nyxaria observou Eryndra caminhar à frente. Ela segurava o Lamentis de forma diferente agora, não como arma nem como objeto carregado por hábito, mas como alguma coisa cuja extensão começava a compreender apenas naquele momento.

O instrumento não apenas revelava aquilo que permanecera preso a um ponto específico. Sob certas condições, podia alterar as correntes de ar ao redor e deslocar resíduos através delas: fragmentos de fala, sons, sensações, informações incompletas que continuavam pertencendo ao ambiente, mesmo quando transportadas alguns metros ou por corredores inteiros da floresta.

Esse detalhe tornava o Lamentis mais poderoso.

Também o tornava mais perigoso.

Uma memória fora de lugar podia parecer uma mensagem. Um eco trazido de outro ponto podia ser confundido com algo acontecendo no presente. E uma voz incompleta podia ganhar significado diferente apenas porque alguém queria desesperadamente que ela significasse alguma coisa.

Nyxaria conhecia bem demais o risco de ouvir uma verdade sem contexto suficiente.

A floresta começou a se abrir aos poucos, os troncos ficando mais espaçados e o dossel mais alto, até que a claridade de uma pequena clareira apareceu entre as últimas fileiras de árvores.

Eryndra diminuiu ligeiramente o passo.

— Estamos chegando.

Calder morava numa construção baixa, feita a partir de parte de uma carroça antiga adaptada com paredes improvisadas de madeira e pedra lascada. Ficava exatamente onde a floresta se abria para uma clareira pequena o suficiente para receber luz direta por algumas horas do dia.

Uma horta estreita ocupava quase metade daquele espaço, bem cuidada e irregular. Havia plantas que Nyxaria não reconhecia, misturadas a variedades mais comuns, escolhidas aparentemente menos pela aparência do que pela capacidade de sobreviver naquele solo.

Um homem de cabelos brancos estava de joelhos entre as fileiras, arrancando ervas daninhas com a metodicidade de quem não tinha nenhuma pressa de terminar.

Era mais velho do que Nyxaria esperava. Ainda conservava a solidez física de alguém acostumado ao trabalho manual, mas as mãos traziam também pequenas marcas de tinta junto às unhas.

Não se levantou quando as três chegaram à borda da clareira.

— Eryndra — disse, sem erguer os olhos da terra. — Você trouxe forasteiras.

— Trouxe.

— Por quê?

— Porque elas vieram procurar você.

Calder continuou trabalhando por alguns segundos.

— Isso costuma ser uma razão ruim.

— Desta vez talvez não seja.

Ele finalmente parou.

— Você tocou o violino hoje.

— Toquei.

Calder ergueu os olhos para ela.

— O vento mudou até aqui.

Eryndra pareceu surpresa.

— Você percebeu?

— Depois de viver nesta floresta tempo suficiente, a gente aprende a notar quando o ar está carregando coisa demais.

Ele se levantou devagar.

Avaliou Vaelis primeiro, com a atenção de alguém acostumado a medir riscos antes de permitir desconhecidos perto da própria casa.

Depois olhou para Nyxaria.

A mudança em seu rosto foi pequena, mas imediata.

Os músculos ao redor dos olhos se contraíram. A mão direita permaneceu imóvel ao lado do corpo. Por um instante, Nyxaria teve a impressão de que Calder não a estava vendo naquela clareira, mas comparando seu rosto a alguma lembrança antiga.

— Você tem os olhos dele — disse.

Nyxaria sentiu o peito apertar.

— De quem?

Calder limpou as mãos na roupa devagar. Quando voltou a encará-la, havia no rosto dele não a expressão de alguém surpreendido por uma pergunta, mas a de alguém que carregara uma resposta durante tempo demais.

— Edrahn.

Vaelis ficou imóvel ao lado de Nyxaria.

Nenhuma das duas respondeu.

Calder olhou de uma para a outra e pareceu compreender mais naquele silêncio do que teria compreendido com qualquer apresentação formal.

— Então você é a filha.

Nyxaria engoliu em seco.

— Você conheceu meu pai?

Calder demorou antes de responder.

— Conheci.

Foi uma palavra pequena demais para os anos que Nyxaria havia passado sem saber onde procurar.

— Meu nome chegou até você como Tharic? — perguntou Calder.

Nyxaria percebeu Vaelis virar ligeiramente a cabeça para ele.

— Chegou.

Calder assentiu uma única vez.

— Faz muito tempo que ninguém usa esse nome comigo.

Nyxaria se lembrou do aviso de Eryndra e não repetiu.

— Quero saber o que aconteceu com Edrahn.

O rosto de Calder perdeu qualquer vestígio da cautela inicial e assumiu algo mais pesado.

— Imaginei.

Ele olhou para a pequena construção atrás de si e depois novamente para Nyxaria.

— Entrem.

— Você vai me contar?

Calder sustentou o olhar dela.

— Vou contar o que eu sei. Não é a mesma coisa que conseguir dar a resposta que você quer.

Nyxaria sentiu a mão de Vaelis tocar brevemente seu braço.

Calder abriu a porta.

— Isso vai levar algum tempo.