A Estranha de Nythera
Eryndra chegou a Umbra Noctis sem avisar ninguém.
Havia pensado em mandar uma mensagem antes de partir, mas não encontrara uma forma de explicar o motivo da viagem que soasse como motivo real e não como pretexto vago. "Preciso entender o que aconteceu comigo" era verdade, mas não era o tipo de coisa que se enviava por courier sem gerar mais perguntas do que qualquer resposta escrita conseguiria resolver.
Depois que Nyxaria e Vaelis deixaram Nythera, Eryndra tocara o Lamentis novamente na borda da floresta. Queria descobrir se o que acontecera junto à árvore tinha sido uma ocorrência isolada, produzida por circunstâncias impossíveis de repetir, ou se alguma coisa realmente mudara entre ela e o instrumento.
A manifestação voltara.
Não da mesma forma e não com a mesma intensidade, mas o suficiente.
Foi então que a lembrança da conversa com Nyxaria começou a pesar de outra maneira: existiam outras pessoas ligadas a relíquias, e havia em Lunareth um arquivista que, segundo ela, aprendera a diferença entre registrar alguma coisa e reivindicar o direito de expor quem estava envolvido.
Isso, Eryndra decidiu, era um motivo concreto.
Preferiu aparecer e deixar que o restante se explicasse pela própria presença.
A névoa de Umbra Noctis era diferente da névoa de Nythera.
Em Nythera, Eryndra crescera cercada por lugares carregados de memória residual. Sons antigos, impressões deixadas por acontecimentos anteriores e fragmentos sensoriais faziam parte da maneira como aprendera a perceber a floresta muito antes de entender por que alguns pontos pareciam reter mais do passado do que outros. O Lamentis havia tornado essa relação mais intensa, mais nítida e muito menos fácil de ignorar.
A névoa de Umbra Noctis não lhe causava a mesma impressão.
Era mais densa, mais presente, mas parecia carregar outra espécie de peso. Eryndra não encontrava nela a mesma abundância de resíduos que reconhecia em Nythera. Havia algo mais deliberado naquele ambiente, como se a cidade tivesse sido construída por pessoas acostumadas a decidir cuidadosamente o que revelar e o que manter escondido.
Talvez fosse apenas a primeira impressão.
Mesmo assim, ela percebeu a diferença.
A cidade também a surpreendeu pela escala. Nythera tinha o pequeno assentamento em sua borda e depois a floresta, e mesmo o assentamento era pequeno o bastante para que Eryndra conhecesse praticamente todas as famílias de vista. Umbra Noctis possuía mercados, corredores cobertos e construções altas o suficiente para bloquear e redirecionar o vento de maneiras que ela ainda tentava aprender a ler.
As vozes chegavam de todos os lados.
Não eram os ecos incompletos da floresta.
Eram pessoas vivas, presentes, deixando palavras, discussões, risadas e segredos pequenos escaparem em todas as direções ao mesmo tempo.
Nyxaria a encontrou antes que chegasse ao portão da Catedral.
— Você poderia ter avisado — disse, sem acusação na voz.
— Não sabia como explicar por escrito.
— Poderia ter tentado.
— Vim tentar pessoalmente. Parece mais eficiente.
Nyxaria a observou com aquela atenção direta que Eryndra já identificara no primeiro encontro como uma das características mais constantes dela. Nyxaria raramente olhava ao redor de uma questão quando podia olhar diretamente para o centro.
— O Lamentis?
Eryndra tocou a correia presa ao ombro. O instrumento estava embrulhado no couro habitual.
— Comigo.
— Você tocou novamente depois que fomos embora?
— Uma vez. Na borda da floresta.
Nyxaria esperou.
— Queria descobrir se o que aconteceu perto da árvore tinha sido circunstancial ou se conseguiria provocar uma resposta novamente.
— E conseguiu?
— Sim.
— Igual?
— Não. Mas consistente o bastante para tornar difícil fingir que a primeira vez foi acidente.
Nyxaria assentiu com a expressão de alguém que compreendia por experiência própria como uma segunda manifestação podia tornar tudo mais real sem tornar nada mais simples.
— A rede já sabe que você estava em Nythera no dia em que o instrumento reagiu. Não sei exatamente quanto sabem além disso, mas algumas pessoas vão reconhecer a história quando você entrar.
— Reconhecer a história ou me reconhecer?
— Por enquanto, a história. Eles sabem que existe uma jovem de Nythera ligada ao que aconteceu com uma relíquia na floresta. Não sei se seu nome circulou.
— Podem perguntar.
— Vão perguntar.
— E eu posso recusar responder.
— Pode.
Nyxaria fez uma pausa.
— Isso não significa que todos vão respeitar a recusa da maneira que deveriam.
— Então já somos parecidas em mais de uma coisa.
Nyxaria percebeu na frase alguma coisa que levara muito mais tempo para conseguir dizer sobre si mesma com aquela naturalidade. Não respondeu. Apenas retomou o caminho em direção à entrada lateral da Catedral, evitando o pátio principal onde a voz antiga costumava passar boa parte das manhãs.
Não funcionou.
A voz antiga estava no corredor interno quando as duas cruzaram a entrada, conversando com um dos membros mais jovens da rede que Nyxaria mencionara durante o caminho. A conversa parou quando elas apareceram.
A voz antiga voltou toda a atenção para Eryndra.
Não era apenas o olhar dirigido a uma pessoa desconhecida. Era o olhar de alguém comparando a pessoa presente com informações que já havia recebido antes.
— Você é de Nythera.
— Sou.
— É a jovem ligada ao instrumento que reagiu na floresta.
Eryndra não confirmou nem negou.
Percebeu que o membro mais jovem ao lado da voz antiga abrira o caderno que carregava.
— Por que veio a Umbra Noctis?
— Para conversar com Nyxaria.
— Sobre o que aconteceu?
— Sobre aquilo que eu decidir conversar com ela.
A voz antiga não recuou, mas também não insistiu na mesma direção. Eryndra reconheceu o movimento. Na floresta, alguns animais faziam algo parecido quando encontravam uma passagem bloqueada: não abandonavam o destino, apenas procuravam outra entrada.
— Você carrega um instrumento.
— Carrego.
— Que tipo?
— O tipo que é meu.
A voz antiga sustentou o olhar dela.
— A doutrina do Culto valoriza a exposição da verdade como caminho para compreensão real. O que aconteceu com você e o que carrega são exatamente o tipo de coisa que poderíamos ajudar a compreender melhor.
— O Culto poderia ajudar ou o Culto quer saber?
A pergunta produziu uma pequena pausa.
— As duas coisas não precisam ser opostas.
— Não precisam.
Eryndra olhou brevemente para o caderno aberto ao lado.
— Mas deixam de parecer iguais quando uma das partes começa a registrar antes de a outra concordar em contar.
O membro jovem hesitou.
Eryndra voltou a atenção para a voz antiga.
— Em Nythera, quando algo entra num território sem ser convidado, a floresta costuma responder antes de qualquer pessoa. Aprendi cedo a prestar atenção nisso. Aqui vocês fazem perguntas primeiro e decidem depois se a pessoa realmente queria participar da conversa.
Ela fez uma pequena pausa.
— Vou precisar de mais tempo do que este corredor para aprender a diferença.
— Não estamos exigindo nada. Estamos oferecendo ajuda.
— Ofertas acompanhadas de alguém tomando notas enquanto eu respondo parecem menos ofertas do que deveriam.
O membro mais jovem fechou o caderno.
Eryndra não tentou decidir se aquilo era resposta à observação ou apenas cautela tardia. O resultado prático era suficiente.
Nyxaria tocou brevemente o braço dela, gesto de orientação, não de restrição.
— Vamos.
Seguiram pelo corredor sem que ninguém tentasse detê-las novamente.
Quando finalmente ficaram longe o bastante da voz antiga, Eryndra soltou devagar o ar que não percebera estar segurando.
— A névoa aqui é mais densa do que eu esperava.
— Sempre foi.
— Você se acostumou?
Nyxaria pensou.
— Com algumas partes.
— Não sei se quero me acostumar.
— Então não fique tempo suficiente para isso. Fique tempo suficiente para descobrir o que veio descobrir.
Eryndra olhou para ela.
— E o que você descobriu ficando aqui?
Nyxaria demorou antes de responder.
— Que a doutrina da exposição funciona muito bem quando usada para exigir verdade de outras pessoas.
— E quando exigem de você?
— Foi quando comecei a perceber quantas exceções as pessoas encontram para uma regra quando são elas que precisam obedecer.
— Então aprendeu a usar a doutrina contra eles.
— Aprendi a lembrar que ela também se aplica a quem faz as perguntas.
Nyxaria fez uma pequena pausa.
— Não significa que eu goste de precisar fazer isso.
Eryndra assentiu.
Continuaram andando por alguns metros antes que ela voltasse a tocar a correia do instrumento.
— O Lamentis parece diferente aqui.
Nyxaria olhou para o couro preso ao ombro dela.
— Diferente como?
— Quieto.
— Você nem tocou.
— Não preciso tocar para perceber quando existe coisa demais ao redor.
Eryndra procurou uma maneira mais precisa de explicar.
— Em Nythera, mesmo antes de usar o arco, parece que sempre existe alguma coisa esperando muito perto da superfície. Aqui não sinto a mesma pressão.
— Por causa da névoa?
— Talvez. Ou por causa da cidade. Ou porque ainda não sei ler este lugar.
Nyxaria assentiu.
— Gosto mais dessa resposta.
— Por quê?
— Porque deixa espaço para você descobrir que estava errada sem precisar fingir depois que nunca teve certeza.
Eryndra lançou um olhar de lado para ela.
— Você está começando a falar como seu arquivista.
— Isso está ficando preocupante.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Eryndra e desapareceu quase tão depressa quanto surgira.
— Você disse que existe alguém em Lunareth que não registra sem permissão.
— Disse.
— Renn.
— Renn.
— E confia nele.
— Mais do que em qualquer instituição que já tentou me dizer o que sou.
Eryndra ficou alguns segundos em silêncio.
— Quero conhecer ele.
Nyxaria não pareceu surpresa.
— Imaginei que fosse uma das razões para você ter vindo.
— É.
— Vai ter oportunidade.
— Quando?
— Quando ele voltar a Lunareth e quando você decidir que quer ir até lá. Ele ainda está voltando de Kharad.
Eryndra aceitou a resposta.
— Então não hoje.
— Não hoje.
Nyxaria abriu a porta dos aposentos.
— Hoje você chegou a uma cidade que nunca visitou, atravessou uma Catedral onde algumas pessoas já sabiam da sua existência antes de você saber os nomes delas e foi interrogada antes de guardar a bagagem. Acho que já é suficiente.
— Isso é normal aqui?
— Infelizmente, não foi nem um dia particularmente estranho.
Eryndra entrou.
O quarto era de pedra, sem janelas voltadas para a rua principal. A luz entrava por uma abertura alta e estreita, suficiente para iluminar o interior sem trazer consigo todo o ruído da cidade.
Eryndra permaneceu imóvel por alguns segundos.
O lugar não era vazio de história. Nenhum lugar ocupado por pessoas por tempo suficiente realmente parecia vazio para ela. Havia marcas pequenas, impressões fracas, coisas tão antigas ou banais que quase desapareciam sob a quietude.
Mas não havia a saturação de Nythera.
Nada parecia pressionar a superfície, esperando o Lamentis para ganhar forma.
Pela primeira vez desde que tocara o instrumento junto à árvore proibida, Eryndra entrou num espaço onde não sentiu imediatamente que alguma memória exigia atenção.
— Posso ficar neste quarto?
— Por enquanto. Se precisar de outro, resolvemos.
— Este serve.
Nyxaria começou a fechar a porta, mas Eryndra falou antes.
— A voz antiga vai tentar novamente.
— Vai.
— Com mais pessoas.
Nyxaria inclinou levemente a cabeça.
— É possível.
— Você acha provável.
— Acho.
Eryndra segurou a correia do Lamentis.
— Quando acontecer, vai me deixar responder sozinha?
Nyxaria ficou parada no vão da porta.
— Vou.
Eryndra esperou.
— Só peço uma coisa — continuou Nyxaria. — Antes de dizer alguma coisa que não possa recolher depois, tenha certeza de que quer que ela exista fora de você.
— Quando uma coisa dita tem como ser recolhida?
Nyxaria quase sorriu.
— Nunca.
— Então por que o aviso?
— Justamente por isso.
Nyxaria fechou a porta.
Eryndra permaneceu sozinha no quarto.
Durante alguns segundos, não fez nada.
Então retirou o Lamentis do couro e o colocou sobre a cama.
Não tocou.
Não precisava.
Ficou apenas olhando para o instrumento que, até poucos dias antes, estivera incorporado a uma árvore que sua comunidade aprendera a não tocar sem sequer lembrar completamente por quê.
Agora estava em outra cidade.
Eryndra também.
Do lado de fora, Umbra Noctis continuava cheia de vozes vivas.
Pela primeira vez desde Nythera, Eryndra percebeu que o que mais a inquietava não eram as vozes que um lugar guardava depois que as pessoas iam embora.
Eram as que ainda estavam falando.