Arcana Primus

Toda luz projeta uma sombra

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O Infernum

O nômade que Renn abordara não respondeu à pergunta sobre as câmaras inferiores, mas também não se afastou. Continuou trabalhando entre os blocos, em silêncio, até que um garoto, sujo de poeira da cabeça aos pés, se aproximou e puxou a manga de Korrin sem cerimônia.

— Você é o homem que vendeu o lugar para os de fora.

— Sou.

— Kaelira não vai querer falar com você.

— Ela está viva?

O garoto, que Renn ouviria mais tarde ser chamado de Tessen, hesitou antes de responder, avaliando Korrin e o estranho ao lado dele com a desconfiança direta de quem já aprendera, recentemente, que forasteiros raramente traziam coisa boa.

— Está. Mas não vai querer falar com nenhum dos dois.

— Eu não vendi nada — disse Renn. — Vim de Lunareth investigar a anomalia que esta região já registrava antes da escavação. Não tenho relação com o que aconteceu, exceto a de ter chegado tarde demais para impedir.

Tessen considerou a explicação com uma seriedade que parecia mais velha do que a idade dele sugeria.

— Lunareth. Os que ficam catalogando coisa sem nunca ajudar com nada.

— Às vezes é verdade.

A resposta honesta pareceu surpreender o garoto mais do que qualquer defesa teria surpreendido. Olhou para Korrin, depois de volta para Renn, como se reavaliasse alguma conclusão que já tinha formado antes de a conversa começar.

— Ela está perto da fogueira leste. Não toca nela sem perguntar primeiro. Ela não gosta mais de ser tocada sem aviso.

— Por que "mais"? — perguntou Renn.

— Porque desde que ela voltou de lá embaixo, qualquer mão que se aproxima sem aviso faz ela se afastar, como se esperasse que a pessoa fosse cair em algum lugar que ela já viu ceder antes.

Atravessaram o acampamento em silêncio, passando por fileiras de feridos atendidos com panos improvisados e por uma área isolada onde corpos cobertos esperavam identificação. Renn contou, sem se propor a contar, sete formas cobertas antes de chegar à fogueira leste.

Encontraram Kaelira sentada sozinha, a uma distância deliberada do restante do acampamento improvisado, um objeto longo envolto em um pano grosso apoiado contra a perna. Não ergueu os olhos quando Renn e Korrin se aproximaram, ainda que a postura dela mudasse de forma sutil, ombros mais retos, mãos mais próximas do objeto enrolado.

Korrin parou a uma distância respeitosa, deixando que Renn se aproximasse primeiro, gesto que Renn reconheceu como o tipo de cuidado que alguém só aprendia depois de testemunhar a mesma cena se repetir várias vezes.

— Korrin — disse Kaelira, sem cumprimento. — Você vendeu a localização.

— Vendi.

— E voltou aqui mesmo assim.

— Voltei porque ele pagou para eu trazê-lo, e porque eu não sabia, quando vendi, o que ia acontecer.

— Isso não muda quem está morto.

— Eu sei.

Kaelira finalmente ergueu os olhos para Renn, examinando-o com a mesma rapidez calculada que usava para avaliar formações instáveis havia anos, agora aplicada a uma pessoa em vez de uma rocha.

— Você é de Lunareth.

— Renn. Arquivista licenciado.

— Veio catalogar o desastre, ou catalogar a mim?

A pergunta direta, sem qualquer tentativa de disfarce, pegou Renn de um jeito que poucas conversas conseguiam pegá-lo.

— Não sei ainda o que vou catalogar. Vim porque os relatórios sobre anomalias nesta área aumentaram nas últimas semanas, antes mesmo da escavação acontecer. O que aconteceu aqui parece maior do que apenas um colapso causado por ferramentas inadequadas.

— Parece, é.

— Pode me contar o que aconteceu, do seu ponto de vista?

Kaelira não respondeu de imediato, os dedos se fechando levemente sobre o pano que cobria o objeto apoiado contra a perna.

— Eu desci porque a única saída que conhecia tinha desaparecido. Encontrei uma câmara que nenhum mapa registra. Encontrei isso.

Descobriu parcialmente o pano, revelando o metal negro do instrumento, os veios alaranjados ainda visíveis, mais fracos do que antes, mas presentes.

— Toquei porque era a única coisa que parecia firme, e eu precisava de algo firme. O resto eu não escolhi.

Renn observou o instrumento sem se aproximar, reconhecendo nele, mesmo sem instrumento de medição em mãos, algo categoricamente diferente do Coração de Lumen ou do Vox Tenebrae: nenhum brilho constante, nenhuma simetria evidente, apenas a presença de algo que parecia, mesmo em repouso, prestes a se mover.

— Posso perguntar uma coisa sem que pareça que estou catalogando você?

— Pode perguntar. Não prometo gostar.

— Desde que você tocou nisso, sente alguma coisa diferente? Algo que não sentia antes.

Kaelira considerou a pergunta com mais seriedade do que qualquer uma das anteriores.

— Sinto a tenda ao lado rangendo de um jeito que ninguém mais parece notar. Sinto a pedra sob meus pés de um jeito que não sentia há três dias. Achei, no início, que fosse só nervos, depois do que aconteceu. Agora não tenho tanta certeza.

Como se confirmasse a própria descrição, um leve estalo ecoou de uma estrutura próxima, quase imperceptível. Kaelira virou a cabeça na direção exata do som antes que ele terminasse de ecoar. Nenhum outro nômade ao redor pareceu notar.

— Você ouviu isso? — perguntou Renn.

— Vou ouvir isso de agora em diante, eu acho. Não sei se essa é uma resposta que você queria.

— Como você sabia a direção exata antes mesmo do som terminar?

— Eu não sabia. Senti antes de ouvir. É difícil explicar de outro jeito.

— Isso aconteceu outras vezes, desde a câmara?

Kaelira contou nos dedos, sem pressa, como se a pergunta merecesse precisão em vez de resposta vaga.

— Quatro vezes que percebi claramente. Talvez mais, que eu tenha ignorado pensando que era só cansaço ou nervosismo. A última foi essa manhã, antes de qualquer um perceber que uma das paredes do armazém improvisado ia ceder. Gritei para todo mundo saírem trinta segundos antes de a estrutura realmente cair.

— Salvou alguém com isso.

— Salvei. Mas também assustei todo mundo, e agora ninguém sabe se deve ficar perto de mim ou ficar mais longe, por precaução.

Renn anotou a observação, mais por hábito do que por necessidade imediata, e guardou o caderno antes que o gesto pudesse parecer, aos olhos dela, mais um ato de catalogação fria.

— O que vai fazer com isso? — perguntou, indicando o instrumento ainda parcialmente coberto.

— Não sei. Não consigo soltar, e não sei se quero. Tessen acha que devo enterrá-lo de novo, na mesma câmara. Eu acho que, se eu fizer isso, alguém mais vai encontrá-lo do mesmo jeito que eu encontrei, sem nenhum aviso sobre o que está prestes a tocar.

— Posso te dar um aviso, pelo menos. O que sei sobre objetos parecidos a esse, em outros lugares.

— Existem outros parecidos com esse?

Renn hesitou, pesando quanto contar diante de alguém que claramente carregava mais do que conseguia processar em um único dia.

— Existem. Não vou te dar detalhes agora, porque não acho que seja a hora certa para isso, e porque as pessoas envolvidas merecem decidir, elas mesmas, o que compartilhar e com quem. Mas posso te dizer isso: você não é a única pessoa neste continente carregando algo que ninguém mais sabe explicar.

Kaelira não respondeu de imediato, os olhos fixos no instrumento entre as próprias mãos, como se a informação pesasse de um jeito que nenhuma palavra sua conseguisse, ainda, processar por completo.

— Isso devia me fazer sentir menos sozinha — disse, finalmente. — Não está funcionando ainda.

— Talvez funcione, com tempo.

— Talvez.

Tessen se aproximou enquanto o sol começava a baixar sobre os Pilares Caídos, sentando-se ao lado de Kaelira sem pedir permissão, gesto que parecia reservado só para ele entre todas as pessoas do acampamento. Korrin permaneceu afastado, observando a cena com uma expressão que Renn não soube interpretar completamente, talvez culpa, talvez apenas cansaço acumulado de um dia que se estendera além do que qualquer pessoa deveria suportar.

— Vou ficar em Margem mais alguns dias — disse Renn. — Se quiser conversar de novo, ou se precisar de qualquer coisa que eu possa providenciar através de Lunareth, pode me encontrar lá.

— Não prometo procurar.

— Não estou pedindo promessa. Só estou deixando a porta aberta.

Kaelira não respondeu a isso, voltando a atenção para o instrumento ainda em seu colo, os dedos passando devagar sobre o pano que o cobria parcialmente, como quem verifica, por hábito recém-formado, se algo ainda está exatamente onde deveria estar.

Renn se levantou, fez um gesto de despedida que Tessen respondeu com um aceno breve, e seguiu de volta em direção ao centro do acampamento, onde a busca por mais corpos continuava sob a luz que ainda restava do dia.

Permaneceu, por um momento, parado entre os escombros, tentando organizar mentalmente o que carregava agora: o papel de Sythriel sobre a origem do suporte dezessete, a carta de Nyxaria sobre Edrahn, e agora o rosto e a voz de uma terceira pessoa que aprendera, em um único dia, a viver com uma sensibilidade que ninguém mais ao redor dela compartilhava.

Três pessoas, três relíquias, três Correntes diferentes, e nenhuma delas sabendo da existência das outras duas. Renn era, àquela altura, a única pessoa em todo o continente que conseguia ver as três peças ao mesmo tempo, e não tinha, ainda, a menor ideia do que fazer com essa visão completa que ninguém lhe pedira para carregar.