O Que Restou
Calder contou sem pausas desnecessárias.
Edrahn chegara até Kharad com ele, e os dois seguiram juntos por quase um ano depois do ponto do registro que Lunareth encontrara. Não eram amigos no sentido que a palavra normalmente carregava: eram dois homens que haviam descoberto, pela coincidência geográfica de uma mesma estrada, que compartilhavam o mesmo problema de não conseguir ignorar o que encontravam à beira do caminho.
O problema de Kharad era que o que havia à beira do caminho nem sempre tinha nome.
— O Residuum Ruinae — disse Calder, usando o nome como quem usa uma ferramenta que conhece bem, não como quem o descobre pela primeira vez. — Era mais ativo naquela época. Menos contido do que agora. Os limites conhecidos não avançavam como uma doença, mas havia regiões em que a atividade era muito mais intensa do que é hoje. E alguns lugares estavam tão carregados pelo que havia acontecido que você continuava sabendo onde estava, mas começava a perder a certeza de quando pertenciam as coisas que ouvia ou sentia.
Nyxaria permaneceu imóvel.
— Memórias?
— Resíduos, impressões, sons às vezes. Nunca encontrei uma palavra que servisse para tudo. Não era como ver o passado inteiro diante de você. Era pior de um jeito mais simples: você podia ouvir alguma coisa e não saber se acontecera minutos antes ou décadas antes. Sentir cheiro de fumaça onde nada queimava. Perceber passos acompanhando os seus e descobrir que não havia ninguém. Quanto mais fundo se entrava em certas regiões, mais difícil ficava confiar no presente.
Nyxaria pensou imediatamente em Eryndra, sentada do lado de fora com o Lamentis no colo, mas não interrompeu.
— Edrahn queria entender — continuou Calder. — Eu também. Foi o que nos manteve juntos por mais tempo do que qualquer coisa pessoal.
— O que aconteceu com ele?
Calder não desviou os olhos.
— Entrou numa das regiões de maior atividade. Eu fui com ele até certo ponto e parei, porque senti que ir além significava correr um risco muito maior de não encontrar o caminho de volta. Edrahn não parou.
— Você tentou impedi-lo?
— Tentei. Ele disse que havia alguma coisa lá dentro que o atraía de uma forma que não parecia curiosidade. Chamou de reconhecimento.
Nyxaria franziu levemente a testa.
— Reconhecimento de quê?
— Ele não sabia. Disse que era como se aquele lugar soubesse alguma coisa sobre ele que ele próprio ainda não conseguia entender.
Nyxaria sentiu a frase se fixar antes mesmo de decidir o que fazer com ela.
— Ele morreu.
— Não sei.
Calder respondeu sem suavizar a palavra.
— Esse é o único ponto sobre o qual não vou fingir certeza. Ele não voltou. Isso eu sei. Mas naquela parte de Kharad, naquela época, não voltar e morrer não eram necessariamente a mesma conclusão. Passei anos tentando chegar novamente ao ponto onde nos separamos e nunca consegui avançar tanto quanto naquela primeira vez.
— Por quê?
— As condições mudavam. Às vezes a atividade aumentava. Às vezes o caminho que parecia possível num dia se tornava impraticável no seguinte. Outras vezes eu simplesmente chegava até determinado ponto e sabia que continuar seria transformar uma tentativa de busca em duas pessoas desaparecidas em vez de uma.
Calder baixou os olhos por um instante.
— Depois parei de tentar, porque percebi que continuar era a forma mais eficaz de não viver o resto da minha própria vida.
Nyxaria não respondeu imediatamente. Processou a informação com uma calma que não vinha de ausência de emoção, mas da necessidade de terminar de receber antes de decidir como reagir.
— Você sabia que ele tinha uma filha.
— Sabia. Ele falava de você.
Nyxaria levantou os olhos.
— Pelo meu nome?
— Não. Quase nunca. Falava de uma filha que esperava por ele e da promessa de voltar. Às vezes você era a razão que ele dava para partir no dia seguinte. Outras vezes era a razão que usava para ficar mais um dia, porque dizia que o que estava aprendendo ali valeria alguma coisa quando voltasse.
— Ele escolheu ficar.
Calder levou alguns segundos antes de responder.
— Ele ficou. Se escolheu permanecer até o fim ou se, em algum momento, deixou de perceber claramente a diferença entre continuar procurando e já não conseguir abandonar a procura, eu não sei.
— Era corajoso ou irresponsável?
Calder considerou a pergunta com a seriedade que ela merecia.
— Curioso, acima de qualquer outra coisa. A coragem e a irresponsabilidade eram consequências dessa curiosidade, não causas. Não sei se isso facilita ou dificulta.
— Não facilita. Mas é mais honesto do que a maioria das coisas que já me disseram sobre ele.
Vaelis, sentada mais perto da entrada da construção, permanecera em silêncio durante toda a conversa. Nyxaria reconheceu na postura da mãe não o controle treinado da doutrina, mas o tipo de quietude que surge quando alguém finalmente ouve uma resposta que esperou por décadas e descobre que recebê-la não torna o passado mais simples.
Eryndra continuava do lado de fora, sentada no único degrau da entrada, o Lamentis apoiado sobre o colo. Não participara da conversa, mas Nyxaria sabia que ouvia cada palavra. Em Nythera, sons raramente permaneciam apenas onde eram produzidos, e Eryndra parecia ter aprendido desde cedo que nem tudo que chegava aos ouvidos exigia intervenção.
Por alguns instantes, ninguém falou.
Então uma corrente de ar atravessou a clareira.
Foi breve e fraca, sem a densidade que Nyxaria aprendera a associar à manifestação do Lamentis, mas suficiente para fazer algumas folhas secas deslizarem diante da porta. Eryndra ergueu os olhos para elas e depois para a floresta, como se tivesse ouvido alguma coisa que as outras pessoas não ouviram.
Não tocou.
Nyxaria percebeu o gesto e guardou a pergunta para depois.
Em Heliovar, Sythriel, Selindra e Maren deixaram o Templo antes que qualquer acólito fosse enviado para interceptá-las.
Maren conhecia os corredores melhor do que qualquer visitante externo e escolheu a saída que contornava o Círculo Médio, longe dos aposentos do coral e dos setores onde alguém poderia decidir que a autorização concedida a Selindra precisava ser reinterpretada antes que elas alcançassem a rua.
As duas cópias produzidas por Sythriel continuavam separadas. Uma permanecia com ela; a outra estava guardada na bolsa de Selindra, destinada a Lunareth. Maren levava apenas anotações secundárias feitas durante a consulta, informação insuficiente para substituir qualquer uma das cópias, mas útil o bastante para confirmar datas, nomes e referências caso alguém tentasse questionar depois como elas haviam chegado àquelas conclusões.
— Para onde você vai? — perguntou Sythriel a Selindra, já na rua fora do Templo.
— Lunareth. Essa cópia chega ao Conselho Pleno antes do fim da semana.
— E depois?
— Depois o Conselho decide o que fazer com ela. Eu não controlo esse passo. Só controlei o anterior.
Sythriel a observou por alguns segundos.
— Você sabia que isso ia acontecer hoje. Que eu encontraria os registros e que eles diriam exatamente aquilo.
— Não.
A resposta veio sem hesitação.
— Eu sabia que havia uma probabilidade alta de você encontrar alguma coisa relevante. A possibilidade de os documentos confirmarem diretamente uma autorização institucional era menor. Nunca é certeza.
— Mas você veio mesmo assim.
— Porque algumas trajetórias já tinham mais pressão do que outras.
— Você sempre fala desse jeito?
Selindra quase sorriu.
— Desde que minha percepção mudou, sim. Às vezes sinto falta de quando eu olhava para alguma coisa e simplesmente pensava "isso vai acontecer". Era menos preciso, mas muito mais confortável.
— E agora?
— Agora eu vejo caminhos. Alguns mais abertos, outros estreitando, alguns desaparecendo quando as condições mudam. Isso não significa que eu saiba qual deles alguém vai escolher.
Maren caminhava ao lado das duas sem interromper. Havia em sua expressão a atenção silenciosa de quem guardava aquela conversa para entender depois, hábito que parecera banal quando trabalhava apenas entre registros e que agora assumia outra importância.
— Você vai continuar no Templo? — perguntou Selindra a Sythriel.
— Por enquanto. Ainda há coisas que só consigo fazer de dentro.
Selindra assentiu.
— Quando isso mudar, há um lugar em Lunareth.
— Na rede?
— Não exatamente.
Selindra procurou a formulação antes de continuar.
— Um espaço que ainda não tem nome porque as pessoas que talvez precisem dele continuam dispersas. Não é uma instituição. Pelo menos ainda não. Talvez nunca precise ser.
Sythriel entendeu o que Selindra evitava definir cedo demais.
— Eventualmente.
— É a palavra certa, por enquanto.
Selindra seguiu pela rua que levava aos alojamentos de visitantes, onde passaria a noite antes de partir pela manhã. Sythriel permaneceu alguns instantes na calçada de pedra diante do Templo onde havia cantado durante anos, com sua própria cópia protegida dentro da veste, olhando para os portões como se aquela fosse a primeira vez que os observava realmente do lado de fora.
Em Margem, Renn escreveu duas cartas naquela mesma noite.
A primeira era destinada a Lunareth. Descreveu a conversa com Davrick em detalhes, registrou a existência dos cadernos e confirmou que dois volumes haviam sido entregues voluntariamente para sair de Kharad. Informou também a região geral onde Davrick vivia, mas omitiu a rota exata até a câmara. Davrick escolhera tornar públicos os registros; não dera a Renn autorização para transformar seu esconderijo em coordenada administrativa.
Era uma distinção que Renn não teria feito alguns meses antes.
Agora fazia.
A segunda carta era para Sythriel.
Começou sem saber exatamente o que escrever. Havia coisas que agora conhecia sobre a história de Kharad que ela talvez já tivesse descoberto por outros caminhos, e havia descobertas que suspeitava que Sythriel estivesse fazendo em Heliovar sem qualquer maneira de confirmá-las dali.
Então escreveu apenas o que sabia que lhe pertencia contar.
Disse que Davrick existia e estava vivo. Que falara. Que os dois cadernos sairiam de Kharad por caminhos diferentes. Que a versão do Evento preservada por ele confirmava decisões que Renn suspeitava que Sythriel pudesse estar encontrando nos registros da Ordem.
Depois hesitou por algum tempo antes de acrescentar outra coisa.
Escreveu que havia uma diferença entre carregar uma verdade sozinho e carregá-la sabendo que, em outros pontos do continente, outras pessoas estavam sustentando partes diferentes do mesmo peso sem coordenação, sem ordem superior e, na maioria dos casos, sem sequer se conhecerem.
Fechou a carta sem ter certeza de que dissera exatamente o que queria. Mas aprendera nas últimas semanas que incerteza sobre uma formulação não era motivo suficiente para transformar algo importante em silêncio.
Kaelira estava sentada junto à janela do armazém quando ele terminou, o Infernum apoiado no colo e os dedos repousando sobre as cordas sem pressioná-las o bastante para produzir qualquer nota. Era a postura de alguém que ainda descobria a fronteira entre carregar um instrumento e tocar um instrumento, sem pressa de atravessá-la antes de compreender o que havia do outro lado.
Tessen dormia encostado à parede próxima, mergulhado no sono pesado de quem passara semanas em alerta constante e finalmente encontrara tranquilidade suficiente para permitir ao corpo cobrar a dívida. Kaelira não o acordara para jantar. Renn também não.
— Você vai ficar em Margem? — perguntou ele.
— Por enquanto.
Kaelira olhou através da janela.
— Ainda preciso entender melhor o que consigo perceber e o que acontece quando o Infernum responde. Não quero escolher para onde ir antes de saber o que estou levando comigo.
— É uma boa resposta.
— É a única honesta que tenho.
Renn guardou a pena.
— O homem que veio buscar o instrumento pode voltar.
— Pode.
— Acha que vai?
— Acho.
Os dedos de Kaelira deslizaram lentamente sobre uma das cordas escuras.
— Mas vai encontrar uma situação diferente. Da primeira vez, eu sabia apenas que alguma coisa acontecia quando tentavam tirar o Infernum de mim à força. Agora sei um pouco mais.
— Sabe que ele responde às fraturas que já existem.
— E que eu consigo percebê-las antes.
— Isso não significa que consiga controlar tudo.
— Não.
Kaelira olhou para o instrumento.
— Mas saber onde termina o meu controle já é melhor do que não saber se existe algum.
Renn assentiu.
— Ainda não é seguro.
— Não.
— Mas é mais do que você tinha antes.
— É.
A resposta bastou.
Renn guardou as cartas na bolsa, junto ao caderno de Davrick que carregaria consigo até encontrar uma rota segura para enviá-lo. O segundo permanecia separado, sob responsabilidade de Kaelira. Pela primeira vez desde que Lunareth começara a tratar aqueles acontecimentos como casos isolados, ele conseguia perceber uma estrutura surgindo entre eles — não uma organização, não uma profecia cumprida, nem sequer um plano, mas pessoas diferentes descobrindo que aquilo que acontecia com cada uma talvez não pudesse mais ser compreendido separadamente.
Em Nythera, Nyxaria finalmente ouvira o último homem conhecido a acompanhar Edrahn.
Em Heliovar, Sythriel encontrara a prova de que o Evento de Ruína não fora apenas uma catástrofe sem origem conhecida.
Em Kharad, Renn carregava o testemunho de um homem que passara quarenta anos recusando-se a deixar que a versão oficial fosse a única sobrevivente.
Nenhum deles sabia ainda qual forma aquilo assumiria quando essas linhas finalmente se encontrassem.
Mas já não eram linhas isoladas.