A Névoa Que Recuou
O mercado de Umbra Noctis funcionava à mesma hora todos os dias, independente da névoa, da estação ou de qualquer evento que a cidade decidisse discutir abertamente nas semanas anteriores. Nyxaria seguia até ele duas vezes por semana, tarefa que retomara depois de Drentha, em parte porque a rotina ajudava a preencher o tempo de espera, em parte porque ninguém mais na casa parecia disposto a fazer compras enquanto Vaelis se dedicava cada vez mais às tarefas administrativas que a rede lhe atribuíra desde o registro externo do caso.
O mercado àquela hora reunia o tipo de movimento que Nyxaria aprendera a apreciar nas últimas semanas: vendedores anunciando preços em voz alta, compradores discutindo qualidade sem nenhuma cortesia disfarçada, crianças correndo entre as barracas sem que ninguém se preocupasse em vigiá-las de perto. Era o tipo de normalidade que ela passara a valorizar mais depois de tudo que acontecera.
Estava diante da barraca de tecidos, negociando o preço de um rolo de lã escura, quando a névoa recuou.
Não foi um clareamento gradual, como acontecia nas raras manhãs em que o sol conseguia atravessar parcialmente a camada espessa sobre a cidade. Foi súbito: a névoa, em toda a extensão visível do mercado, afinou-se ao mesmo tempo, revelando por um instante os contornos completos dos prédios mais altos, normalmente obscurecidos até a metade.
O comerciante de tecidos parou no meio da frase.
— Você viu isso?
— Vi.
Ao redor, outras conversas se interromperam pelo mesmo motivo. Um homem mais à frente ergueu os braços, olhando para o céu como se procurasse alguma explicação física visível ali. Uma mulher perto da barraca de especiarias gritou para o marido, sem nenhuma tentativa de disfarçar a própria confusão, perguntando se ele também tinha visto. Uma criança, perto da fonte central do mercado, simplesmente riu, encantada, sem entender que os adultos ao redor não compartilhavam a mesma reação.
Durou menos de três segundos. A névoa retornou à densidade habitual, e o mercado, depois de um instante de silêncio coletivo, voltou a funcionar como sempre funcionara, ainda que com um volume de conversa visivelmente mais alto do que minutos antes.
— Isso nunca aconteceu antes — disse o comerciante de tecidos, retomando a negociação como se nada tivesse interrompido, mas com a voz ainda levemente alterada. — Pelo menos não desde que eu nasci aqui.
— Quantos anos você tem? — perguntou Nyxaria.
— Quarenta e três. E meu pai, que viveu até os oitenta, nunca mencionou nada parecido em todo o tempo que conversamos sobre o clima desta cidade.
Nyxaria pagou pelo rolo de lã e seguiu em direção à Catedral, cruzando grupos pequenos que discutiam o ocorrido em voz alta, sem qualquer constrangimento, exatamente como Noctyra discutia tudo: a névoa havia recuado, alguém precisava dizer isso a alguém, e quanto mais pessoas ouvissem, melhor. Um vendedor de lamparinas, parado na esquina seguinte, já oferecia, em tom de brincadeira nervosa, "proteção contra o próximo recuo," gesto que arrancou risos forçados de quem passava, mais para dissipar a própria tensão do que por achar graça real na piada.
Encontrou Vaelis nos aposentos, organizando documentos que o coordenador lhe entregara naquela manhã.
— A névoa recuou no mercado, há pouco.
Vaelis ergueu os olhos dos documentos, e por um instante a expressão dela revelou algo que Nyxaria não esperava: reconhecimento, não surpresa.
— Você sentiu também?
— Senti um frio breve, aqui dentro, na mesma hora que você descreve. Achei que fosse só cansaço.
— Não foi cansaço. Metade do mercado viu a mesma coisa.
Vaelis colocou os documentos de lado, considerando a informação com mais cuidado do que qualquer notícia recente sobre o clima justificaria.
— Isso já aconteceu antes, que você saiba? — perguntou Nyxaria.
— Nunca de forma tão visível. A névoa varia de densidade, mas nunca recua de uma vez, em toda a cidade, ao mesmo tempo. Os registros mais antigos da rede mencionam variações graduais, ligadas a estações ou a grandes confissões coletivas, mas nada parecido com o que você descreve.
— Acha que tem relação com o que aconteceu comigo no Cofre?
— Não sei. Mas não vou descartar a possibilidade só porque não tenho como confirmar. Já aprendi, nas últimas semanas, que descartar coisas por falta de prova imediata raramente é a escolha mais sábia.
— Devíamos contar ao coordenador?
— Provavelmente já sabe. Se metade do mercado viu, a rede inteira vai saber antes do anoitecer.
Nyxaria considerou perguntar mais, mas reconheceu, na postura da mãe, o mesmo tipo de cautela que vinha aprendendo a respeitar desde a revelação sobre Edrahn: algumas perguntas mereciam tempo antes de qualquer resposta definitiva.
Os documentos sobre a mesa, Nyxaria notou então, incluíam um envelope com o selo de Lunareth, parcialmente aberto.
— Isso chegou hoje?
— Chegou ontem. Eu ia te mostrar depois do jantar, mas já que está aqui.
Vaelis estendeu o envelope. Dentro, duas páginas escritas por uma caligrafia diferente da de Renn, mais apertada, menos espaçada entre as linhas.
— Quem escreveu isso?
— Alguém do Conselho de Arquivistas. Renn deixou instruções antes de partir, lembra? A busca continuou sem ele.
— Tem notícias dele?
— A carta não menciona Renn diretamente. Só o trabalho que ele deixou encaminhado antes de viajar.
Nyxaria leu em silêncio. O documento confirmava o que já sabiam — um homem correspondendo ao nome e à descrição de Edrahn, registrado em um posto de descanso da rota leste, há mais de vinte anos — mas acrescentava um detalhe novo: o registro do posto mencionava dois viajantes naquela noite, não um. O segundo nome estava ilegível no documento original, parcialmente destruído por umidade, restando apenas as duas primeiras letras.
— Ele não estava sozinho.
— Não estava, pelo visto.
— Você sabia disso?
— Não. Ele nunca mencionou viajar com alguém, e eu nunca soube de ninguém que tivesse desaparecido na mesma época, além dele.
Nyxaria releu o trecho sobre o segundo nome, tentando, sem sucesso, extrair qualquer significado adicional das duas letras que sobreviveram à umidade. Eram um "T" e um "h", seguidos de espaço em branco onde a tinta se dissolvera por completo.
— Pode ser qualquer nome — disse Vaelis, observando a mesma página por sobre o ombro da filha. — Não adianta tentar adivinhar a partir de duas letras.
— Eu sei. Mas é difícil não tentar.
— Vou escrever de volta, pedindo para tentarem recuperar mais do registro original — disse Vaelis. — Se existe um segundo nome, talvez exista também uma segunda família perguntando as mesmas coisas que nós, em algum lugar deste continente.
— Ou talvez essa pessoa também tenha desaparecido sem deixar família para perguntar.
Vaelis não respondeu a isso, e o silêncio que se seguiu carregou o peso de uma possibilidade que nenhuma das duas parecia disposta a examinar em voz alta naquela noite.
— Acha que o segundo nome tem alguma relação com Kharad também? — perguntou Nyxaria, depois de um momento.
— Não sei dizer. O registro só confirma que os dois seguiram juntos até aquele ponto da rota. Não confirma se seguiram juntos depois, ou se um decidiu continuar e o outro voltou, ou qualquer outra possibilidade que eu poderia imaginar sem nenhuma prova real.
— Tantas possibilidades, e nenhuma resposta.
— É o que tenho aprendido a esperar, desde que esse assunto começou.
Nyxaria guardou a carta junto ao pingente, no mesmo lugar onde mantinha os dois objetos desde a noite em que Vaelis finalmente dissera o nome de Edrahn.
Antes de apagar a lamparina, sentou-se junto à janela do quarto, observando a névoa de Umbra Noctis na densidade habitual, como se o recuo de horas antes nunca tivesse acontecido. Tentou reconstruir, mentalmente, a sensação exata do frio breve que sentira na hora do recuo, comparando-a, sem saber se a comparação fazia sentido, com a sensação de calor que percorrera seu corpo na noite do Cofre. Eram diferentes, mas guardavam algo em comum que ela não conseguia nomear com precisão: a impressão de que alguma força, em algum ponto distante, exigia mais do mundo do que o mundo cedia sem reação visível.
Pensou em Renn, em algum ponto da viagem que nenhuma carta ainda confirmara, cruzando uma fronteira que ela só conhecia por descrição. Pensou no segundo nome, reduzido a duas letras e um espaço vazio onde a tinta se perdera. Pensou em Edrahn, seguindo adiante por uma estrada que ele talvez tivesse escolhido conhecendo o destino, ou talvez não.
Nenhum desses pensamentos produziu resposta. Mas, pela primeira vez em semanas, Nyxaria teve a sensação de que as peças que vinha reunindo — o nome, a rota, o segundo viajante, o recuo da névoa que toda a cidade testemunhara junto com ela — talvez não fossem coincidências isoladas, e sim fragmentos de algo que continuava se movendo, em algum lugar fora do alcance de qualquer explicação que Noctyra tivesse pronta para oferecer.
Apagou a lamparina, e o quarto ficou na escuridão que conhecia bem demais para temer, ainda que, naquela noite, a escuridão parecesse guardar mais perguntas do que em qualquer outra noite recente.