A Fronteira da Exclusão
O prazo de duas semanas se esgotou em uma manhã de céu carregado, sem que ninguém na sala administrativa precisasse consultar um calendário para saber disso.
Calwyn entregou o relatório da investigação interna pessoalmente, depois de ter sido o próprio enviado pela Ordem para revisar os registros remanescentes do posto avançado, tarefa que Threlan lhe confiara sem anunciar a ninguém além de Sythriel, conforme prometido. Passara as duas semanas viajando entre Heliovar e os postos administrativos mais próximos da fronteira leste, revisando arquivos que ninguém consultava havia décadas, dormindo em hospedarias que cobravam mais do que qualquer orçamento da galeria normalmente justificaria.
— O posto existiu — disse Calwyn, colocando o documento sobre a mesa, visivelmente mais cansado do que estivera em qualquer sessão anterior. — Funcionou por pouco mais de uma década, antes do Evento de Ruína. A maior parte dos registros operacionais não sobreviveu. O que restou não identifica a causa exata do colapso, só confirma que houve evacuação de emergência, e que o suporte dezessete fazia parte do inventário transferido na última retirada.
— Isso não nos diz nada que já não soubéssemos — disse Threlan.
— Diz que não vamos conseguir mais do que isso sem alguém presente no local. Os arquivos que sobreviveram aqui são fragmentos. Qualquer resposta real está em Kharad, não em Heliovar.
— Quantos dos sacerdotes que serviram naquele posto ainda estão vivos?
— Nenhum identificado nos registros que encontrei. A evacuação aconteceu há mais de quarenta anos. Mesmo os mais jovens da época já teriam idade avançada agora, e nenhum deles aparece em qualquer registro de reassentamento posterior que eu tenha conseguido localizar.
Threlan permaneceu em silêncio por mais tempo do que qualquer resposta exigiria, os dedos batendo de forma irregular sobre a borda da mesa.
— Você concordou em duas semanas, Alto Sacerdote — disse Renn, sem hostilidade na voz, mas também sem qualquer disposição de deixar o ponto passar sem ser dito.
— Eu sei o que concordei.
Sythriel, sentada na mesma posição que ocupara na reunião anterior, observou Threlan considerar a situação com a expressão de alguém que já sabia, antes de qualquer palavra ser dita, qual seria a decisão final, e ainda assim precisava do tempo de processar o próprio desconforto com ela.
— Autorizo a missão conjunta — disse, finalmente. — Lunareth indica o representante. A Ordem fornece acesso a qualquer registro relevante, e recebe relatório completo ao final.
— Eu vou — disse Renn.
— Você já está comprometido com dois casos. Lunareth não tem outro arquivista disponível?
— Não tem. E mesmo que tivesse, eu seria a escolha mais lógica. Conheço os dois eventos que originaram essa investigação melhor do que qualquer outro arquivista do Conselho conseguiria aprender a tempo.
Threlan não discutiu o ponto.
A carta de Nyxaria chegou na manhã seguinte, entregue a Renn nos aposentos reservados a visitantes oficiais, antes mesmo que ele tivesse tempo de organizar a bagagem para a viagem já decidida.
Leu em silêncio, sentado na borda da cama estreita que ocupara durante todo o tempo em Heliovar.
A carta descrevia o pingente, o nome — Edrahn —, a rota leste, o posto de descanso, a direção final que ninguém conseguira confirmar além daquele último avistamento. Descrevia também, em poucas linhas adicionais, a hesitação de Vaelis em compartilhar a informação, e a decisão final de Nyxaria de enviá-la mesmo assim, sem esperar que a mãe terminasse de se decidir sozinha.
Renn dobrou a carta com cuidado, e por um instante permaneceu sentado, sem se mover, processando o peso de mais um nome se juntando à lista de pessoas que a região ao redor do Residuum Ruinae já havia engolido sem explicação: a anomalia ativa relatada pelo observador independente, o Evento de Ruína que encerrara o posto avançado da Ordem, e agora um homem desaparecido há mais de vinte anos, pai de uma garota que aprendera, há poucas semanas, que carregava algo que nenhum instrumento conseguia medir por completo.
Pensou em quantas outras cartas semelhantes deveriam existir, espalhadas por arquivos que nenhum arquivista jamais cruzaria, cada uma descrevendo um desaparecimento isolado, sem ligação aparente com qualquer outro, até que alguém, por acaso ou por insistência, decidisse perguntar se todos apontavam, de alguma forma, para a mesma direção.
Guardou a carta no mesmo compartimento da bolsa onde guardava o disco de cristal e o papel dobrado de Sythriel, três objetos que, juntos, formavam um mapa incompleto do que esperava encontrar.
Sythriel encontrou Renn junto aos portões externos do Templo, na manhã de sua partida, antes que ele tivesse oportunidade de procurá-la primeiro.
— Vim me despedir antes que você decidisse fazer isso em silêncio.
— Eu não ia partir sem te avisar. Prometi que você seria informada, e isso inclui o momento em que eu deixo de estar disponível para informar pessoalmente.
— Vai ser perigoso?
— Não sei. É exatamente por isso que estou indo.
Sythriel observou a bolsa de couro pendurada no ombro dele, mais cheia do que estivera em qualquer momento anterior da estadia em Heliovar.
— Recebi uma carta de Noctyra ontem — disse Renn. — A pessoa que encontrei lá tinha um nome para me dar. O pai dela seguiu para Kharad há mais de vinte anos e nunca voltou.
— Isso significa alguma coisa para o que está acontecendo lá agora?
— Não sei ainda. Mas significa que pelo menos três fios diferentes apontam para o mesmo lugar, e três fios raramente se cruzam por coincidência, na minha experiência.
— Quem é ela? A pessoa de Noctyra.
— Isso ainda não posso dizer. Mas, se um dia puder, acho que vocês duas teriam bastante em comum para conversar.
Sythriel considerou a frase sem perguntar mais, reconhecendo nela o mesmo tipo de discrição cuidadosa que ela própria vinha aprendendo a praticar nas últimas semanas.
— Vai me contar o que encontrar?
— Vou. Threlan concordou com isso, e eu concordaria de qualquer forma, com ou sem a concordância dele.
— E se você não encontrar nada que valha a pena contar?
— Então vou contar isso também. Silêncio sobre o que não sei é diferente de silêncio sobre o que sei e escondo. Já vi demais do segundo tipo nas últimas semanas para repetir o erro.
Sythriel não soube exatamente o que dizer em seguida, e o silêncio que se formou entre os dois carregou algo que nenhuma das conversas anteriores precisara carregar: a possibilidade concreta de que aquela fosse a última vez que se falariam, dependendo do que Kharad realmente guardasse.
— Cuidado — disse, por fim, palavra que pareceu insuficiente para o que sentia, mas que foi a única que conseguiu encontrar.
— Vou tentar.
— Isso também não é uma promessa muito útil.
— É a única honesta que tenho. Você já me ensinou a reconhecer a diferença.
Renn seguiu pelos portões externos, encontrando o guia que esperava com os cavalos prontos para a viagem mais longa que fizera desde que deixara Lunareth pela primeira vez, semanas antes.
A estrada até Kharad durou nove dias, atravessando regiões que a maioria dos mapas oficiais marcava apenas como "território de passagem," sem nome próprio, sem assentamentos permanentes, sem qualquer rede capaz de fornecer hospedagem além de acampamentos improvisados junto ao caminho. Nos primeiros dias, Renn manteve o hábito de registrar observações, como fazia em qualquer viagem. A partir do quinto dia, as anotações diminuíram, substituídas por longos trechos de silêncio que o guia respeitava sem comentar.
No sétimo dia, cruzaram um povoado abandonado havia tempo suficiente para que a vegetação rasteira já tivesse engolido metade das construções visíveis. O guia não desmontou para investigar, e Renn não insistiu, reconhecendo que algumas perguntas, naquela região, valiam menos do que o tempo que custaria respondê-las.
No nono dia, o guia parou o cavalo antes de qualquer construção aparecer no horizonte.
— Daqui em diante, viajo sozinho de volta — disse, sem desmontar. — Kharad paga melhor do que qualquer outra rota que eu faço, mas não o suficiente para cruzar a fronteira da zona de exclusão.
— Quanto tempo até o primeiro assentamento depois da fronteira?
— Não sei dizer com certeza. As rotas mudam, dependendo de qual parte do terreno decidiu ceder naquele mês. Siga a trilha mais batida, não a mais curta.
Renn desmontou, ajustando a bolsa sobre o ombro, e observou a paisagem adiante: terra rachada em padrões que não pareciam naturais, vegetação rasteira crescendo em ângulos que desafiavam qualquer explicação botânica comum, e, no horizonte distante, um silêncio que parecia maior do que a simples ausência de som deveria produzir.
Um marco de pedra, gasto pelo tempo, indicava o início oficial da zona de exclusão histórica, a inscrição original já ilegível, substituída por uma placa mais recente que repetia, em três idiomas, a mesma advertência seca: entrada não recomendada, responsabilidade individual, nenhum resgate institucional garantido além deste ponto.
Caminhou sozinho em direção à fronteira, a bolsa firme contra o corpo, os três objetos guardados nela pesando mais do que qualquer um deles pesaria sozinho. Três fios diferentes o haviam trazido até ali, e nenhum deles aceitaria, àquela altura, que ele voltasse sem respostas.