Correntes de Aeralis
O vento chegou antes de Aella.
Myiora estava no segundo andar do armazém flutuante que usava como escritório, revisando uma proposta de rota comercial que envolvia três portos e dois tipos de carga que normalmente não coexistiam no mesmo contrato, quando o ar dentro do cômodo mudou de direção sem que nenhuma janela tivesse sido aberta.
Porto Aeralis, àquela hora do dia, tinha um ritmo de vento que ela havia aprendido a reconhecer como qualquer arquivista aprendia a reconhecer padrões num texto. A brisa das docas vinha do leste, carregada com cheiro de sal e madeira tratada; o vento que subia do mercado de peixes chegava em rajadas curtas e irregulares; o que descia das colinas ao norte permanecia constante até perto do entardecer. Nenhum daqueles padrões correspondia ao deslocamento de ar que acabara de atravessar o cômodo.
Myiora parou de escrever.
Conhecia aquela alteração específica. Aella estava se aproximando e trazia alguma coisa consigo — não necessariamente um objeto, mas uma percepção que ainda não decidira como transformar em palavras. Desde que aprendera a ler as correntes em escala maior, Aella às vezes alterava o ar ao redor sem intenção consciente, como se perceber e responder fossem partes próximas demais do mesmo processo para permanecerem completamente separadas.
A porta abriu pouco depois.
— Você já sabia que eu estava vindo — disse Aella, sem surpresa.
— Sabia que vinha com alguma coisa. Ainda não sei o quê.
Aella entrou e deixou a porta aberta atrás de si, hábito que Myiora havia desistido de corrigir depois das primeiras semanas de convivência. Carregava Sylphae e Sylvarn presas juntas por uma correia de couro no ombro, a flauta e a gaita acomodadas numa posição que parecia descanso apenas para quem não sabia o quanto as duas funcionavam como partes do mesmo sistema.
Sentou-se na única cadeira sem papéis.
Isso significava que pretendia ficar.
— Você percebeu alguma coisa diferente nas correntes nos últimos dias?
Myiora ergueu os olhos.
— Nas marés, sim. No ar, não do jeito que você percebe.
— Pergunto porque os ventos estão chegando de direções que não correspondem ao padrão da estação. Não é erro de leitura. Medi três vezes.
Myiora pousou a pena.
— Diferente de que forma?
Aella demorou a responder.
— Eles carregam alguma coisa.
— Alguma coisa física?
— Não. Não peso, nem volume.
Ela franziu levemente a testa, procurando uma palavra que não parecia existir de maneira satisfatória.
— Frequência, talvez. É como perceber a consequência de alguma coisa muito distante antes de entender a causa. Como se um instrumento tivesse sido tocado longe daqui e eu não estivesse ouvindo a nota, só o modo como alguma parte dela alterou o movimento do ar.
— Você acha que é música?
— Não sei. Estou usando uma comparação porque não tenho nome melhor.
Myiora assentiu. Gostava da precisão daquela resposta mais do que gostaria de uma certeza falsa.
— Mas não é vento normal.
— Não. Vento normal eu reconheço mesmo quando o padrão está errado. Isso é diferente. Não parece apenas uma corrente fora de época. Parece uma corrente carregando uma assinatura.
Myiora permaneceu em silêncio por alguns segundos, separando percepção de interpretação. Fazia isso com qualquer relato de Aella, não porque duvidasse dela, mas porque sabia que, para alguém cuja relação com o vento era tão íntima, aquilo que sentia e aquilo que concluía podiam se aproximar depressa demais.
— Você consegue determinar de onde vem?
— Do continente. Mais do que isso ainda não.
— Quando começou?
— Na semana passada. Foram dois eventos separados.
— Iguais?
— Não.
Aella apoiou os antebraços sobre os joelhos.
— O primeiro parecia mais pesado. Seco. Mineral. Havia uma sensação de pressão acumulada e alguma coisa cedendo. Não estou dizendo que ouvi pedra quebrando. Estou dizendo que foi a associação mais próxima que consegui encontrar.
Myiora pensou nas próprias anotações antes mesmo de Aella continuar.
— E o segundo?
— Mais fluido. Movimento contínuo, pressão distribuída. Parecia mais próximo de alguma coisa que eu conhecia, mas não o suficiente para identificar.
Myiora virou lentamente a cabeça na direção da janela.
Nos mesmos dias, as marés de Aeralis haviam produzido variações pequenas demais para interromper o funcionamento do porto, mas insistentes o bastante para aparecer em suas próprias medições. Ela as atribuíra à instabilidade sazonal porque, isoladas, não justificavam uma investigação maior.
Agora já não estavam isoladas.
— Eu registrei alterações nas marés nesses mesmos períodos — disse.
Aella ficou imóvel.
— Nos dois?
— Nos dois.
— Iguais?
— Não. E isso é importante.
Myiora abriu uma gaveta e retirou duas folhas dobradas.
— O primeiro deslocamento foi curto e irregular. O segundo durou mais, mas teve amplitude menor. Eu tratei como variação sazonal porque não havia outro dado que justificasse uma interpretação diferente.
Aella olhou para as folhas.
— Agora há.
— Agora há outra percepção independente ocorrendo nas mesmas janelas de tempo. Ainda não é uma causa.
— Mas já é uma correlação.
— É suficiente para investigar.
Aella assentiu.
Myiora conhecia aquele gesto. A decisão já estava chegando antes mesmo da pergunta.
— Você quer ir ao continente.
— Ainda não decidi completamente.
Myiora ergueu uma sobrancelha.
— Veio até aqui com as duas relíquias no ombro para me perguntar se percebi a mesma coisa.
— Isso não significa que decidi.
— Significa que está procurando uma razão para transformar vontade em decisão.
Aella não negou.
— Posso ir sozinha.
— Pode.
— Mas com você eu provavelmente vou mais longe e volto em condições melhores.
Myiora reconheceu ali a honestidade que mais apreciava em Aella. Ela não transformava necessidade prática em sentimentalismo para tornar o pedido mais fácil de aceitar.
— Para onde iria primeiro?
— Lunareth.
— Por quê?
— É o ponto do continente com o qual já tenho alguma referência de contato, e é onde existe arquivo suficiente para comparar o que estou sentindo com alguma coisa além da minha própria percepção.
— Os Arcanistas vão querer registrar você de novo.
— Provavelmente.
— Está disposta?
— Estou disposta a ir até Lunareth. Estar disposta ao que eles quiserem fazer depois é outra decisão.
Myiora permaneceu olhando pela janela.
As docas flutuantes de Porto Aeralis se estendiam diante dela, ligadas por passarelas, pontes estreitas e plataformas que mudavam discretamente de posição com o movimento da água. Conhecia famílias, trabalhadores, contratos e rotas suficientes para sentir que aquele lugar finalmente possuía uma estabilidade que não dependia de ela fingir que nada inesperado podia acontecer.
Não fora assim depois de seu próprio Evento de Ressonância.
Naquela noite, ao tocar pela primeira vez o instrumento que depois seria identificado como Abyssal Tide, Myiora perdera completamente a referência de direção e distância. Não se lembrava de uma viagem, de uma estrada ou de qualquer sequência convencional capaz de explicar o que ocorrera. Dias depois, fora encontrada em Lunareth, ainda com o instrumento consigo e sem sinais de ter percorrido fisicamente o caminho de maneira comum.
Os Arcanistas Livres haviam classificado o episódio como deslocamento por ressonância indireta.
Não teletransporte.
Não uma explicação completa.
Apenas o nome mais preciso que haviam encontrado para um fenômeno que nenhum deles compreendia inteiramente.
As semanas de observação e catalogação que se seguiram permaneceram entre as experiências mais úteis e invasivas da vida de Myiora. Lunareth lhe dera dados que ela não teria obtido sozinha, mas também transformara cada sensação do próprio corpo em informação passível de registro.
Desde então, voltar voluntariamente sempre parecera desnecessário.
Até agora.
Aella percebera alterações no vento. Myiora registrara alterações independentes nas marés. Os fenômenos não eram idênticos, mas haviam acontecido nas mesmas janelas de tempo. Isso ainda podia ser coincidência. Só que coincidência, para Myiora, era uma hipótese que se testava antes de ser aceita como resposta.
— Eu vou com você — disse.
Aella apenas assentiu.
— Quanto tempo precisa para resolver seus contratos?
— Três dias. Quatro, se um dos mensageiros atrasar.
— Posso esperar quatro.
— Você poderia partir amanhã e chegar antes.
— Poderia.
Aella levantou-se e ajustou a correia de Sylphae e Sylvarn.
— Prefiro esperar e chegar com alguém que já conhece Lunareth por dentro do que chegar sozinha e descobrir depois quais perguntas deveria ter feito antes de responder às deles.
Myiora quase sorriu.
— Essa é provavelmente a frase mais sensata que ouvi hoje.
Aella caminhou até a porta, mas parou antes de atravessá-la.
— Myiora.
— Sim?
— Você não perguntou o que achei da segunda frequência.
— Achei que diria quando estivesse pronta.
Aella permaneceu olhando para o porto por alguns segundos.
— Pareceu comigo.
Myiora não respondeu.
— Não igual a uma corrente que eu produzi — continuou Aella. — Não sei explicar dessa forma. Parecia familiar no lugar errado. Como ouvir uma sequência que você conhece tocada por outro instrumento e ainda assim reconhecer alguma coisa sua nela.
— Você acha que era você mesma?
— Não sei.
— Um eco?
— Talvez.
— Outra pessoa?
— Talvez.
Aella se virou para ela.
— É exatamente isso que me incomoda. Tenho explicações demais e dados de menos.
Myiora apoiou as mãos sobre a mesa.
Não havia base suficiente para concluir que outra pessoa produzira aquela frequência. Também não havia base para descartar a possibilidade. O fenômeno podia ser um eco da própria ressonância de Aella, uma alteração ambiental que compartilhava características semelhantes ou alguma manifestação produzida por alguém que nenhuma das duas conhecia.
Qualquer uma dessas respostas exigia mais informação.
— Então não vamos a Lunareth para descobrir quem produziu isso — disse Myiora.
Aella inclinou a cabeça.
— Não?
— Vamos descobrir primeiro se existe alguma coisa para atribuir a alguém.
Aella sorriu de leve.
— É por isso que prefiro ir com você.
— Porque sou irritante?
— Porque você demora mais para transformar uma impressão em certeza.
— Isso foi quase um elogio.
— Não se acostume.
Aella saiu, e o ar do cômodo demorou alguns segundos para recuperar completamente o padrão habitual do porto.
Myiora voltou à proposta de rota, mas já sabia que não conseguiria tratá-la como trataria uma tarde normal de trabalho. Fez mentalmente a lista do que precisaria resolver antes da partida: três contratos pendentes, dois mensageiros a acionar, uma pessoa no porto que precisava ser avisada pessoalmente e o conjunto completo de anotações sobre as alterações das marés.
Levaria tudo para Lunareth.
Se houvesse alguma relação entre aquilo que Aella percebia no ar e o que Myiora registrara na água, um arquivo amplo talvez conseguisse revelar um padrão que nenhuma das duas seria capaz de enxergar sozinha.
E, se não houvesse relação alguma, descobrir isso também seria uma resposta.